Identidade - Parte 03 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Parte 03

       “Deixe-me dizer de uma vez: estamos dispostos, com a anuência de seu marido, a realizar uma cirurgia reconstrutiva sem custo. Seria uma espécie de experiência. Analisaremos o caso de seu marido e adotaremos a melhor estratégia para a intervenção hospitalar. Ele receberá apoio psicológico com um analista que será pago pela clínica e faremos a reconstituição de sua face e músculos. Talvez algum dia ele volte a competir, mas não posso garantir nada até ver os resultados da fisioterapia”.
O silêncio que Anna fez em seguida me lançou uma inquietação por todo o corpo. Enquanto as mãos abandonavam a xícara de chá inglês sobre a mesa, ela mantinha no rosto um olhar severo que parecia esconder uma mistura de desconfiança e esperança. Se aquilo tivesse saído de minha boca talvez ela tivesse aceitado com mais rapidez, mas Paulo era uma pessoa de natureza ríspida e sempre havia ficado, para Anna, naquela zona cinzenta de amigos que mantemos mais devido a outras amizades comuns do que pela afinidade. Suas mãos pequenas acariciaram uma à outra enquanto suas sobrancelhas se contorciam por cima do rosto duro e pensativo.

       “Eu aceito”, desabando em um choro de alívio e desamparo.

       Para inspirar confiança eu a abracei.

    A história das cirurgias no imaginário popular era semelhante à dos dentistas no imaginário infantil. Convertera-se lentamente, através de histórias difundidas por gente leiga, em uma série de imagens de torsos abertos e marcadores cardíacos sem sinal apitando em um corredor de hospital recheado de estagiários. A verdade era que a maioria das cirurgias não representava riscos muito grandes para os pacientes e a maioria das mãos que conduziam essas cirurgias eram habilidosa o suficiente para não inspirar nenhuma desconfiança em quem compreendia o dia a dia dos centros cirúrgicos.

       “Como está o Henry hoje?” perguntei, afagando seus cabelos com as mãos.

       “Ele estava nervoso quando saí. Tem tido essas crises quase todos os dias. Já quebrou todos os espelhos que encontrou em casa, amassou a bandeja de salada quando viu seu reflexo na superfície de Inox. O sansão, nosso cachorro, não o reconhece mais… fica latindo para ele às vezes, isso o deixa ainda mais irritado.”, ela engoliu em seco e se recostou na poltrona. “Mas não é assim todos os dias. Ele tem dias bons… estão cada vez mais raros. Não reconheço mais meu próprio marido, Sofia…”.

       “Essa dissociação é comum para quem sofreu os tipos de trauma que ele enfrentou. Ele está em negação, isso é doloroso, mas natural. Vai passar.”

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Jorge Machado
Identidade – Parte 03

       “Deixe-me dizer de uma vez: estamos dispostos, com a anuência de seu marido, a realizar uma cirurgia reconstrutiva sem custo. Seria uma espécie de experiência. Analisaremos o caso de seu marido e adotaremos a melhor estratégia para a intervenção hospitalar. Ele receberá apoio psicológico com um analista que será pago pela clínica e faremos a reconstituição de sua face e músculos. Talvez algum dia ele volte a competir, mas não posso garantir nada até ver os resultados da fisioterapia”.
O silêncio que Anna fez em seguida me lançou uma inquietação por todo o corpo. Enquanto as mãos abandonavam a xícara de chá inglês sobre a mesa, ela mantinha no rosto um olhar severo que parecia esconder uma mistura de desconfiança e esperança. Se aquilo tivesse saído de minha boca talvez ela tivesse aceitado com mais rapidez, mas Paulo era uma pessoa de natureza ríspida e sempre havia ficado, para Anna, naquela zona cinzenta de amigos que mantemos mais devido a outras amizades comuns do que pela afinidade. Suas mãos pequenas acariciaram uma à outra enquanto suas sobrancelhas se contorciam por cima do rosto duro e pensativo.

       “Eu aceito”, desabando em um choro de alívio e desamparo.

       Para inspirar confiança eu a abracei.

    A história das cirurgias no imaginário popular era semelhante à dos dentistas no imaginário infantil. Convertera-se lentamente, através de histórias difundidas por gente leiga, em uma série de imagens de torsos abertos e marcadores cardíacos sem sinal apitando em um corredor de hospital recheado de estagiários. A verdade era que a maioria das cirurgias não representava riscos muito grandes para os pacientes e a maioria das mãos que conduziam essas cirurgias eram habilidosa o suficiente para não inspirar nenhuma desconfiança em quem compreendia o dia a dia dos centros cirúrgicos.

       “Como está o Henry hoje?” perguntei, afagando seus cabelos com as mãos.

       “Ele estava nervoso quando saí. Tem tido essas crises quase todos os dias. Já quebrou todos os espelhos que encontrou em casa, amassou a bandeja de salada quando viu seu reflexo na superfície de Inox. O sansão, nosso cachorro, não o reconhece mais… fica latindo para ele às vezes, isso o deixa ainda mais irritado.”, ela engoliu em seco e se recostou na poltrona. “Mas não é assim todos os dias. Ele tem dias bons… estão cada vez mais raros. Não reconheço mais meu próprio marido, Sofia…”.

       “Essa dissociação é comum para quem sofreu os tipos de trauma que ele enfrentou. Ele está em negação, isso é doloroso, mas natural. Vai passar.”

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