Identidade - Parte 03 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Parte 03

       Ela assentiu. “Espero que o velho Henry volte pra mim. Não quero que ele sofra para sempre. Encontrei pesquisas no navegador sobre suicídio, estou muito preocupada…”.

       Ainda naquela semana decidi fazer uma visita a Henry e Anna no apartamento em que estavam morando. Era um apartamento pequeno na Rua São João, em frente ao metrô Luz. Anna ainda estava trabalhando na clínica como enfermeira. Às vezes ela se lamentava não ter continuado o curso de medicina, mas tinha muito orgulho de seu trabalho. Ainda mantinha o mesmo universo em seu dia a dia: a missão de cuidar da saúde do próximo, sem a desvirtuação de enxergar a vida como negócio, os pacientes como cheques pré-datados. À meia luz, quando adentrei na residência pela sala, avistei os jarros da coleção de Anna depositados sobre a cômoda ainda chamuscada de sua falecida avó. Poucos objetos foram destruídos no incêndio, mas os danos materiais não haviam sido muito extensos. O prejuízo maior, como sabíamos, era de outra natureza. A decoração tinha um quê de desleixo que me fez pensar em como ela estava lidando com a situação. Podia ouvir o cachorro latindo em algum outro cômodo. Atrás de mim, Anna fechava a porta com um estalido metálico e pendurava meu casaco em um prego que servia de cabide na parte de trás da porta.

       “Ele deve estar no quarto agora. Vou preparar um chá, se quiser conversar com ele fique à vontade”, se retirando em direção à cozinha.

       Caminhando pelo corredor mal iluminado, as sombras projetadas por recortes de luz que se esgueiravam por entre as cortinas velhas, sentia como se deixasse para trás uma parcela importante de minha formação enquanto ser humano. Eu sabia que Henry, o novo homem desfigurado e abatido, estava me esperando na primeira porta à esquerda. Os latidos de Sansão se tornavam cada vez mais audíveis à medida que avançava pelos tacos de madeira abaixo dos pés. Havia poucas coisas que eu queria mais do que rever Henry, mas ao mesmo tempo era um momento que temia, desejava que não precisasse acontecer. Eu sabia que o homem que estava naquele quarto, o velho amigo sorridente e bem humorado, estava, em certo sentido, morto. Estava procurando uma nova forma de encarar a vida que se apresentava em seu horizonte, lutando para resistir à dor das chagas no corpo, tentando impedir que o resto de sua humanidade se esvaísse junto com sua antiga identidade, o Henry atleta, o Henry lutador, o Henry que todos aprendêramos a amar incondicionalmente.

       Assim que entrei no quarto pude ver Sansão, o Bulldog Inglês que estava de frente para a cadeira de espaldar reto na qual Henry repousava, ganindo insistentemente, mantendo o olhar fixado na direção do rosto destruído de meu amigo, incapaz de reconhecer seu antigo dono.

       Henry estava de costas para mim e não se movia. Estaquei durante um tempo que me pareceu enorme sem dizer palavra. Não havia nada em minha mente que a linguagem pudesse dar conta de comunicar, a musculatura dos lábios desconheciam completamente as sinapses cerebrais que tentavam movimentá-los, não havia nada a ser dito que pudesse ser reconfortante o suficiente. Poucas vezes em minha vida me vi em uma situação onde não soubesse exatamente como agir, todo a acúmulo de conhecimento das relações pessoais se evaporou na entrada daquele quarto escuro.

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Jorge Machado
Identidade – Parte 03

       Ela assentiu. “Espero que o velho Henry volte pra mim. Não quero que ele sofra para sempre. Encontrei pesquisas no navegador sobre suicídio, estou muito preocupada…”.

       Ainda naquela semana decidi fazer uma visita a Henry e Anna no apartamento em que estavam morando. Era um apartamento pequeno na Rua São João, em frente ao metrô Luz. Anna ainda estava trabalhando na clínica como enfermeira. Às vezes ela se lamentava não ter continuado o curso de medicina, mas tinha muito orgulho de seu trabalho. Ainda mantinha o mesmo universo em seu dia a dia: a missão de cuidar da saúde do próximo, sem a desvirtuação de enxergar a vida como negócio, os pacientes como cheques pré-datados. À meia luz, quando adentrei na residência pela sala, avistei os jarros da coleção de Anna depositados sobre a cômoda ainda chamuscada de sua falecida avó. Poucos objetos foram destruídos no incêndio, mas os danos materiais não haviam sido muito extensos. O prejuízo maior, como sabíamos, era de outra natureza. A decoração tinha um quê de desleixo que me fez pensar em como ela estava lidando com a situação. Podia ouvir o cachorro latindo em algum outro cômodo. Atrás de mim, Anna fechava a porta com um estalido metálico e pendurava meu casaco em um prego que servia de cabide na parte de trás da porta.

       “Ele deve estar no quarto agora. Vou preparar um chá, se quiser conversar com ele fique à vontade”, se retirando em direção à cozinha.

       Caminhando pelo corredor mal iluminado, as sombras projetadas por recortes de luz que se esgueiravam por entre as cortinas velhas, sentia como se deixasse para trás uma parcela importante de minha formação enquanto ser humano. Eu sabia que Henry, o novo homem desfigurado e abatido, estava me esperando na primeira porta à esquerda. Os latidos de Sansão se tornavam cada vez mais audíveis à medida que avançava pelos tacos de madeira abaixo dos pés. Havia poucas coisas que eu queria mais do que rever Henry, mas ao mesmo tempo era um momento que temia, desejava que não precisasse acontecer. Eu sabia que o homem que estava naquele quarto, o velho amigo sorridente e bem humorado, estava, em certo sentido, morto. Estava procurando uma nova forma de encarar a vida que se apresentava em seu horizonte, lutando para resistir à dor das chagas no corpo, tentando impedir que o resto de sua humanidade se esvaísse junto com sua antiga identidade, o Henry atleta, o Henry lutador, o Henry que todos aprendêramos a amar incondicionalmente.

       Assim que entrei no quarto pude ver Sansão, o Bulldog Inglês que estava de frente para a cadeira de espaldar reto na qual Henry repousava, ganindo insistentemente, mantendo o olhar fixado na direção do rosto destruído de meu amigo, incapaz de reconhecer seu antigo dono.

       Henry estava de costas para mim e não se movia. Estaquei durante um tempo que me pareceu enorme sem dizer palavra. Não havia nada em minha mente que a linguagem pudesse dar conta de comunicar, a musculatura dos lábios desconheciam completamente as sinapses cerebrais que tentavam movimentá-los, não havia nada a ser dito que pudesse ser reconfortante o suficiente. Poucas vezes em minha vida me vi em uma situação onde não soubesse exatamente como agir, todo a acúmulo de conhecimento das relações pessoais se evaporou na entrada daquele quarto escuro.

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