Identidade - Parte 03 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Parte 03

       “Sofia?”, uma cabeça se movimentou em 90 graus e o olho (Oh Deus, o único olho bom) tentava vislumbrar quem estava à porta.

       Seu rosto – a porção do rosto que eu era capaz de compreender como um rosto – não me trazia nada à mente. Não havia ali um só vestígio da memória de meu antigo amigo.

       “Henry…”, me aproximei com passos vacilantes, temerosos – medo de quê? -, as mãos cambaleantes tateando o ar em direção a ele num abraço atrapalhado, sem jeito.

       As cortinas foram abertas por Anna abruptamente após ela colocar as xícaras de chá na mesinha ao lado de um pires com algumas bolachas. Sansão havia sido retirado do quarto e estava amarrado na varanda. Não fazia mais barulho quando nos sentamos na cama em frente a Henry. Eu sentia vergonha por não conseguir encará-lo por mais de alguns poucos segundos.
“A morte me visitou no edifício Trelkovski, Sofia”, ele olhava fixamente para mim com o único olho que lhe sobrara, por entre uma pelanca áspera e pardacenta – que no passado fora uma sobrancelha – que o encobria parcialmente. “A dor já acabou, mas o tormento me parece eterno. Me sinto como Prometeu, um corvo vem todos os dias comer meu fígado! Eternamente tenho que conviver com minha ruína, acorrentado, amaldiçoado pelos deuses. Abandonado de uma certa maneira. Boa parte de meus amigos nem sequer se deu ao trabalho de me visitar no hospital. O jornal local se dignou apenas a soltar uma nota na pagina cinco, decidiram que a morte do casal Fonseca merecia mais destaque do que a destruição da carreira de um atleta de renome… não há muito o que esperar desses porcos mesmo. Estão mais interessados em vender jornais do que contar a verdade. Espero que todos morram queimados um dia… Ainda sentirei o cheiro da carne chamuscada destes desgraçados! ”.

       Ele estava curvado, as costas se afastavam do espaldar da cadeira em formato de anzol, saliva escapava da boca contorcida e encharcava os lábios rugosos dando um tom ainda maior de decadência à sua fala engrolada.

       “Meu corpo apodreceu do dia para a noite, se converteu num invólucro vazio, um saco de ossos à beira do abismo. Eu penso em suicídio todos os dias! Todos os dias!”, Anna estava chorando novamente. “Já ouviu falar do navio de Teseu, Sofia? É um exercício lógico-filosófico a respeito da questão da identidade. Imagine que Teseu possuía um navio que foi mantido em processo de restauração durante anos no porto ateniense. Imagine que os atenienses removiam as peças apodrecidas do navio e colocavam peças novas, idênticas às anteriores. Imagine que com o passar dos anos todas as peças foram trocadas. Agora imagine que alguém te faça a seguinte pergunta: o navio continua sendo o mesmo ou é outro?”

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Jorge Machado
Identidade – Parte 03

       “Sofia?”, uma cabeça se movimentou em 90 graus e o olho (Oh Deus, o único olho bom) tentava vislumbrar quem estava à porta.

       Seu rosto – a porção do rosto que eu era capaz de compreender como um rosto – não me trazia nada à mente. Não havia ali um só vestígio da memória de meu antigo amigo.

       “Henry…”, me aproximei com passos vacilantes, temerosos – medo de quê? -, as mãos cambaleantes tateando o ar em direção a ele num abraço atrapalhado, sem jeito.

       As cortinas foram abertas por Anna abruptamente após ela colocar as xícaras de chá na mesinha ao lado de um pires com algumas bolachas. Sansão havia sido retirado do quarto e estava amarrado na varanda. Não fazia mais barulho quando nos sentamos na cama em frente a Henry. Eu sentia vergonha por não conseguir encará-lo por mais de alguns poucos segundos.
“A morte me visitou no edifício Trelkovski, Sofia”, ele olhava fixamente para mim com o único olho que lhe sobrara, por entre uma pelanca áspera e pardacenta – que no passado fora uma sobrancelha – que o encobria parcialmente. “A dor já acabou, mas o tormento me parece eterno. Me sinto como Prometeu, um corvo vem todos os dias comer meu fígado! Eternamente tenho que conviver com minha ruína, acorrentado, amaldiçoado pelos deuses. Abandonado de uma certa maneira. Boa parte de meus amigos nem sequer se deu ao trabalho de me visitar no hospital. O jornal local se dignou apenas a soltar uma nota na pagina cinco, decidiram que a morte do casal Fonseca merecia mais destaque do que a destruição da carreira de um atleta de renome… não há muito o que esperar desses porcos mesmo. Estão mais interessados em vender jornais do que contar a verdade. Espero que todos morram queimados um dia… Ainda sentirei o cheiro da carne chamuscada destes desgraçados! ”.

       Ele estava curvado, as costas se afastavam do espaldar da cadeira em formato de anzol, saliva escapava da boca contorcida e encharcava os lábios rugosos dando um tom ainda maior de decadência à sua fala engrolada.

       “Meu corpo apodreceu do dia para a noite, se converteu num invólucro vazio, um saco de ossos à beira do abismo. Eu penso em suicídio todos os dias! Todos os dias!”, Anna estava chorando novamente. “Já ouviu falar do navio de Teseu, Sofia? É um exercício lógico-filosófico a respeito da questão da identidade. Imagine que Teseu possuía um navio que foi mantido em processo de restauração durante anos no porto ateniense. Imagine que os atenienses removiam as peças apodrecidas do navio e colocavam peças novas, idênticas às anteriores. Imagine que com o passar dos anos todas as peças foram trocadas. Agora imagine que alguém te faça a seguinte pergunta: o navio continua sendo o mesmo ou é outro?”

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