Identidade - Parte 03 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Parte 03

       Ainda hoje, rabiscando essas palavras em meu escritório, não sei dar uma resposta para essa questão. Descobri muito tempo depois, aliviada, que era uma das questões mais controversas da história do pensamento.

       “Minha carne putrefata, minha aparência repugnante, minha personalidade que se decompõe neste preciso momento… isso sou eu ou uma nova pessoa? Quem eu sou agora, Sofia? O novo boneco de estimação de Paulo? O novo experimento que ele deseja fazer? Um rato de laboratório?”, chutando a mesinha e esparramando o chá pelo carpete do quarto. “EU QUERO MINHA IDENTIDADE DE VOLTA, MINHA VIDA!”, a voz estava embargada e irregular, um chiado estranho pontuava cada sílaba tônica. Eu tive a sensação de que ele estava chorando, mas sabia que seus canais lacrimais haviam sido destruídos pelas chamas.

 

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Jorge Machado
Identidade – Parte 03

       Ainda hoje, rabiscando essas palavras em meu escritório, não sei dar uma resposta para essa questão. Descobri muito tempo depois, aliviada, que era uma das questões mais controversas da história do pensamento.

       “Minha carne putrefata, minha aparência repugnante, minha personalidade que se decompõe neste preciso momento… isso sou eu ou uma nova pessoa? Quem eu sou agora, Sofia? O novo boneco de estimação de Paulo? O novo experimento que ele deseja fazer? Um rato de laboratório?”, chutando a mesinha e esparramando o chá pelo carpete do quarto. “EU QUERO MINHA IDENTIDADE DE VOLTA, MINHA VIDA!”, a voz estava embargada e irregular, um chiado estranho pontuava cada sílaba tônica. Eu tive a sensação de que ele estava chorando, mas sabia que seus canais lacrimais haviam sido destruídos pelas chamas.

 

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