Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





O último verso do poeta

Precisava de um teco. Abriu o envelope e despejou a farinha sobre a pia. Ajeitou habilmente a droga com um cartão de credito formando uma fileira única e uniforme. Tapou uma das narinas e cheirou a carreira inteira de uma vez. Sentiu a recompensa química no sangue fazendo efeito gradualmente. Primeiro um torpor leve e em seguida uma descarga poderosa de adrenalina. Uma euforia incontrolável que fez seu coração disparar. E a realidade explodiu em seu peito como uma bomba. Raquel não havia partido havia? Não, ela não fizera isso. Ela tentara, mas aquilo não era uma opção com a qual pudesse conviver. Precisava dela. Precisava da companhia, precisava de seus beijos, precisava do sexo. Ela não podia simplesmente escapar-lhe entre os dedos como as águas de uma corredeira escapam da montanha. Não. Agora enxergava. Só vislumbrava a realidade com clareza quando sentia a coca correr dentro de si. Aquilo o libertava. E agora via com clareza. A verdade absoluta enterrada embaixo da hipocrisia do mundo. Ela ainda estava ali com ele. No apartamento. Flavio sorriu enquanto caminhava sobre o tapete de fabricação persa. Sentiu a ansiedade corroendo seu corpo. Entrou no banheiro mal iluminado do apartamento. O cheiro de lavanda parecia irradiar de toda parte. Ao ligar o comutador a luz acendeu revelando sua doce Raquel. O corpo esguio estava repousando na banheira, uma alvura quase angelical em sua pele macia. Flavio aproximou-se de sua amada num salto. “Pensei que tinha te perdido”, disse. Mas não houve resposta. Estaria chateada com ele? Abraçou-a com força, mas não foi correspondido. Foi nesse momento que ele percebeu o sangue. A poça de sangue havia preenchido um terço da banheira. Os pulsos de Raquel estavam rasgados, fendas profundas haviam sido abertas ate os cotovelos. Não! Aquilo não podia ser verdade. Flavio engoliu em seco e se afastou do corpo. O cheiro de lavanda agora havia se convertido num ranço em sua garganta. O gosto podre de bile fez cocegas em sua garganta, mas ele engoliu o vômito. Atordoado, sem norte, andou às cegas pelo apartamento enquanto tentava entender o que estava acontecendo ali.

[QUE DROGA, QUE PORRA ACONTECEU AQUI?]

Mas ele sabia o que havia acontecido. No fundo de sua mente a possibilidade mais obvia era também a mais grotesca. A quanto tempo estivera se drogando? Dias? Semanas? Recordava-se de comprar vinte gramas… Não, não haviam sido vinte. Haviam comprado um quilo não fora? Haviam? Sim. Ele e Raquel. Haviam comprado um quilo na faculdade.

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Jorge Machado
O último verso do poeta

Precisava de um teco. Abriu o envelope e despejou a farinha sobre a pia. Ajeitou habilmente a droga com um cartão de credito formando uma fileira única e uniforme. Tapou uma das narinas e cheirou a carreira inteira de uma vez. Sentiu a recompensa química no sangue fazendo efeito gradualmente. Primeiro um torpor leve e em seguida uma descarga poderosa de adrenalina. Uma euforia incontrolável que fez seu coração disparar. E a realidade explodiu em seu peito como uma bomba. Raquel não havia partido havia? Não, ela não fizera isso. Ela tentara, mas aquilo não era uma opção com a qual pudesse conviver. Precisava dela. Precisava da companhia, precisava de seus beijos, precisava do sexo. Ela não podia simplesmente escapar-lhe entre os dedos como as águas de uma corredeira escapam da montanha. Não. Agora enxergava. Só vislumbrava a realidade com clareza quando sentia a coca correr dentro de si. Aquilo o libertava. E agora via com clareza. A verdade absoluta enterrada embaixo da hipocrisia do mundo. Ela ainda estava ali com ele. No apartamento. Flavio sorriu enquanto caminhava sobre o tapete de fabricação persa. Sentiu a ansiedade corroendo seu corpo. Entrou no banheiro mal iluminado do apartamento. O cheiro de lavanda parecia irradiar de toda parte. Ao ligar o comutador a luz acendeu revelando sua doce Raquel. O corpo esguio estava repousando na banheira, uma alvura quase angelical em sua pele macia. Flavio aproximou-se de sua amada num salto. “Pensei que tinha te perdido”, disse. Mas não houve resposta. Estaria chateada com ele? Abraçou-a com força, mas não foi correspondido. Foi nesse momento que ele percebeu o sangue. A poça de sangue havia preenchido um terço da banheira. Os pulsos de Raquel estavam rasgados, fendas profundas haviam sido abertas ate os cotovelos. Não! Aquilo não podia ser verdade. Flavio engoliu em seco e se afastou do corpo. O cheiro de lavanda agora havia se convertido num ranço em sua garganta. O gosto podre de bile fez cocegas em sua garganta, mas ele engoliu o vômito. Atordoado, sem norte, andou às cegas pelo apartamento enquanto tentava entender o que estava acontecendo ali.

[QUE DROGA, QUE PORRA ACONTECEU AQUI?]

Mas ele sabia o que havia acontecido. No fundo de sua mente a possibilidade mais obvia era também a mais grotesca. A quanto tempo estivera se drogando? Dias? Semanas? Recordava-se de comprar vinte gramas… Não, não haviam sido vinte. Haviam comprado um quilo não fora? Haviam? Sim. Ele e Raquel. Haviam comprado um quilo na faculdade.

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