Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
José Fernando Rezende
José Fernando Rezende é formado em história e trabalha atualmente como arquivista em empresa do terceiro setor.
Reside em Santa Bárbara d'Oeste, interior de SP.
Apaixonado desde criança pelos gêneros terror e horror, ainda na adolescência passou a escrever suas próprias histórias, tendo como principais inspirações H.P.Lovecraft, Algernon Blackwood e Stephen King.
Fascinado também pela literatura brasileira, elenca como mestres Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado de Assis, Monteiro Lobato e Jorge Amado.
Além dos contos de horror, é torcedor do São Paulo F.C e um diletante na arte culinária.






Anselmo

Antes de querer realmente morrer, Anselmo procurou amarrar os fios de sua existência caótica em postes firmes de alguma realidade menos severa. No entanto, todos os esforços resultaram na dura constatação de que as coisas bem vindas e prazenteiras eram tão diáfanas como o que sentia ele próprio por sua existência: vinham e depressa desapareciam no ar.

Desejava reviver seus tempos de meninice, recordadas pela lembrança dos cheiros e do clima das tardes do passado e por um verão de noites inesquecíveis. Era um tempo onde as estrelas brilhavam sobre os sonhos, fazendo-os reluzir em possibilidades. O incansável corpo infante a correr as ladeiras e pastos, a arrancar aventuras das mangas e o modo de ver aquele ínfimo pedaço de mundo como um principado inconteste.

Das chuvas que caiam no verão, em cujas intermitências a brincadeira retornava para a grama úmida ou no asfalto que evolava um odor molhado que guardava em si um quê de morada. As reminiscências do choro, do riso, dos contentamentos e das angústias, hoje sequer levadas em consideração perfaziam aquilo que estava lá e jamais poderia voltar, por mais desejado que fosse. Nem mais um vislumbre no sol que se punha e apresentava a noite para o menino de olhar perdido na paisagem quase sem construções daquele bairro afastado. A casa de fundos, que aconchegava a memória e guardava uma familiaridade que deixava marcas na alma. Os pés de planta, as mandiocas que grassavam ao redor do terreiro, o frondoso limoeiro de copa baixa, oferecendo sombra para as leituras. Aqui e ali volitavam libélulas, chamadas de pito, a embicar em poças e continuar seu voejar gracioso. A sacola de feira e o cheiro do café na manhã de domingo, dando pouco depois espaço para o assado sendo preparado e logo a mesa repleta de pratos. O sono, a modorra da tarde, as leituras cativantes. Lá fora, o céu de um azul profundo e nuvens brancas que viajavam rápido. O horizonte com alguns prédios que assomavam distantes dava dimensão de longínqua solidão. Não era desmedida, nessa época, a procura por lugares que estão além do que se podia ver e, ao chegar lá, no dorso da égua mansa ou no selim da bicicleta, era constatar que ainda o mundo ia mais além. O retorno para o lugar conhecido depois da incursão nas beiradas do território era como voltar ao regaço de uma mãe. Aquilo era a origem, a irascível juventude de pés lanhados pelos matos e moitas, sujos de terra roxa e de amassar o capim gordura. Dedos escalavrados de mordiscadas de saúva e do bulir com mato e areia e terra. Na cabeça o sonhar, o desejar tão vago e a compreensão fugidia de um agora que parecia não terminar. Nos quintais, nos terrenos baldios, nos campinhos de várzea, nas ruas de terra batida o tempo não era absoluto; ali, vivia-se para sempre. Um canto do tempo onde dor e angústia só duravam até ser lavada pela próxima chuvarada, onde os ferimentos se curavam num misto de ignora-lo e sobrepor a ele outro maior. Do desconhecido, dos medos que se avizinhavam como neblina e na coragem de vencê-los quando se era mais rápido que os ventos. O invencível, o que durava para sempre.

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Antes de querer realmente morrer, Anselmo procurou amarrar os fios de sua existência caótica em postes firmes de alguma realidade menos severa. No entanto, todos os esforços resultaram na dura constatação de que as coisas bem vindas e prazenteiras eram tão diáfanas como o que sentia ele próprio por sua existência: vinham e depressa desapareciam no ar.

Desejava reviver seus tempos de meninice, recordadas pela lembrança dos cheiros e do clima das tardes do passado e por um verão de noites inesquecíveis. Era um tempo onde as estrelas brilhavam sobre os sonhos, fazendo-os reluzir em possibilidades. O incansável corpo infante a correr as ladeiras e pastos, a arrancar aventuras das mangas e o modo de ver aquele ínfimo pedaço de mundo como um principado inconteste.

Das chuvas que caiam no verão, em cujas intermitências a brincadeira retornava para a grama úmida ou no asfalto que evolava um odor molhado que guardava em si um quê de morada. As reminiscências do choro, do riso, dos contentamentos e das angústias, hoje sequer levadas em consideração perfaziam aquilo que estava lá e jamais poderia voltar, por mais desejado que fosse. Nem mais um vislumbre no sol que se punha e apresentava a noite para o menino de olhar perdido na paisagem quase sem construções daquele bairro afastado. A casa de fundos, que aconchegava a memória e guardava uma familiaridade que deixava marcas na alma. Os pés de planta, as mandiocas que grassavam ao redor do terreiro, o frondoso limoeiro de copa baixa, oferecendo sombra para as leituras. Aqui e ali volitavam libélulas, chamadas de pito, a embicar em poças e continuar seu voejar gracioso. A sacola de feira e o cheiro do café na manhã de domingo, dando pouco depois espaço para o assado sendo preparado e logo a mesa repleta de pratos. O sono, a modorra da tarde, as leituras cativantes. Lá fora, o céu de um azul profundo e nuvens brancas que viajavam rápido. O horizonte com alguns prédios que assomavam distantes dava dimensão de longínqua solidão. Não era desmedida, nessa época, a procura por lugares que estão além do que se podia ver e, ao chegar lá, no dorso da égua mansa ou no selim da bicicleta, era constatar que ainda o mundo ia mais além. O retorno para o lugar conhecido depois da incursão nas beiradas do território era como voltar ao regaço de uma mãe. Aquilo era a origem, a irascível juventude de pés lanhados pelos matos e moitas, sujos de terra roxa e de amassar o capim gordura. Dedos escalavrados de mordiscadas de saúva e do bulir com mato e areia e terra. Na cabeça o sonhar, o desejar tão vago e a compreensão fugidia de um agora que parecia não terminar. Nos quintais, nos terrenos baldios, nos campinhos de várzea, nas ruas de terra batida o tempo não era absoluto; ali, vivia-se para sempre. Um canto do tempo onde dor e angústia só duravam até ser lavada pela próxima chuvarada, onde os ferimentos se curavam num misto de ignora-lo e sobrepor a ele outro maior. Do desconhecido, dos medos que se avizinhavam como neblina e na coragem de vencê-los quando se era mais rápido que os ventos. O invencível, o que durava para sempre.

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