Tormenta - Leonardo Duprates
Leonardo Duprates
Leonardo Duprates desenvolvedor de software, compositor, baixista e escritor.
Fã de Edgar Allan Poe e H.P. Lovercraft, foi nos roteiros de R.F. Lucchetti e nos filmes de José Mojica Marins que buscou inspiração para escrever seus contos de terror.









Tormenta

Sebo cumpre as formalidades e me apresenta. Meu nome: Césio, do latim caesium, elemento químico da tabela periódica, símbolo Cs, número atômico 55, Césio 137, acidente radiológico em Goiânia. Entendeu o tamanho da encrenca? Este é exatamente a quantidade de trocadilhos e apelidos que meu pai não previa quando me deu este nome. Impressionado pela repercussão da contaminação radioativa que aconteceu em Goiás, em mil novecentos e oitenta e sete, me batizou ou amaldiçoou com o dom da chacota.
Não bastasse o nome, os problemas persistiram com meu porte físico. Eu poderia ter tido um queixo majestoso, cabelos loiros e estatura de um guerreiro da Normandia se tivesse herdado os traços do papai, um típico alemão de Teutônia. Ou pele escura, cabelos pretos e lisos, força e determinação de um guerreiro charrua se puxasse pela mamãe, que descendia de uma mistura muito peculiar de índios e espanhóis do Chuí na fronteira com o Uruguai. Mas não! Sou praticamente um tributo ao professor Julius Kelp sem nenhuma chance de me tornar um galã.
Nádia e Sebo são extrovertidos, parecem feitos um para o outro. Enquanto falam, as pessoas se aglomeram ao entorno, interessados nos assuntos que se tornam absurdos e fantasiosos sempre tendendo para o ridículo. Já eu e Clara somos nitidamente introvertidos, quando tento aprofundar a conversa, sou pisoteado pela presença de espírito de meus amigos. Enquanto isso, Clara parece estar em um mundo paralelo, compenetrada, olhando fixamente para dentro do copo como se pudesse desvendar, só com o olhar, toda a composição química da cerveja.
O bar continua se abarrotando de pessoas de todos os tipos: aposentados aproveitando o horário da novela para beber, universitários em férias da faculdade à procura de diversão barata, pastores evangélicos e corretores de imóveis disputando quem veste a melhor fatiota, mendigos bebendo as sobras dos copos deixados no balcão, hippies e ambulantes escambando artesanato por bebidas.
No fundo do bar, Beto monta os pedestais da bateria atrás de duas caixas amplificadas sustentadas por velhos engradados plásticos de cerveja. O rapaz dificilmente sai da pensão estudantil onde mora, nunca bebeu álcool e tem profunda dificuldade de conversar com qualquer pessoa que desconheça as obras de Nietzsche. Se não fosse nossa amizade de infância, certamente eu não estaria em sua seleta lista de amigos.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Sebo cumpre as formalidades e me apresenta. Meu nome: Césio, do latim caesium, elemento químico da tabela periódica, símbolo Cs, número atômico 55, Césio 137, acidente radiológico em Goiânia. Entendeu o tamanho da encrenca? Este é exatamente a quantidade de trocadilhos e apelidos que meu pai não previa quando me deu este nome. Impressionado pela repercussão da contaminação radioativa que aconteceu em Goiás, em mil novecentos e oitenta e sete, me batizou ou amaldiçoou com o dom da chacota.
Não bastasse o nome, os problemas persistiram com meu porte físico. Eu poderia ter tido um queixo majestoso, cabelos loiros e estatura de um guerreiro da Normandia se tivesse herdado os traços do papai, um típico alemão de Teutônia. Ou pele escura, cabelos pretos e lisos, força e determinação de um guerreiro charrua se puxasse pela mamãe, que descendia de uma mistura muito peculiar de índios e espanhóis do Chuí na fronteira com o Uruguai. Mas não! Sou praticamente um tributo ao professor Julius Kelp sem nenhuma chance de me tornar um galã.
Nádia e Sebo são extrovertidos, parecem feitos um para o outro. Enquanto falam, as pessoas se aglomeram ao entorno, interessados nos assuntos que se tornam absurdos e fantasiosos sempre tendendo para o ridículo. Já eu e Clara somos nitidamente introvertidos, quando tento aprofundar a conversa, sou pisoteado pela presença de espírito de meus amigos. Enquanto isso, Clara parece estar em um mundo paralelo, compenetrada, olhando fixamente para dentro do copo como se pudesse desvendar, só com o olhar, toda a composição química da cerveja.
O bar continua se abarrotando de pessoas de todos os tipos: aposentados aproveitando o horário da novela para beber, universitários em férias da faculdade à procura de diversão barata, pastores evangélicos e corretores de imóveis disputando quem veste a melhor fatiota, mendigos bebendo as sobras dos copos deixados no balcão, hippies e ambulantes escambando artesanato por bebidas.
No fundo do bar, Beto monta os pedestais da bateria atrás de duas caixas amplificadas sustentadas por velhos engradados plásticos de cerveja. O rapaz dificilmente sai da pensão estudantil onde mora, nunca bebeu álcool e tem profunda dificuldade de conversar com qualquer pessoa que desconheça as obras de Nietzsche. Se não fosse nossa amizade de infância, certamente eu não estaria em sua seleta lista de amigos.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10