Tormenta - Leonardo Duprates
Leonardo Duprates
Leonardo Duprates desenvolvedor de software, compositor, baixista e escritor.
Fã de Edgar Allan Poe e H.P. Lovercraft, foi nos roteiros de R.F. Lucchetti e nos filmes de José Mojica Marins que buscou inspiração para escrever seus contos de terror.









Tormenta

Minha consciência pesa e meus músculos amolecem. Minha boa ação, na verdade, foi o estopim para a morte brutal de duas pessoas. Mas o que eu poderia fazer? Repentinamente, sou arremessado contra o chão, minha pele queima e meus ouvidos zumbem. Olho para o carro, ele acabara de explodir. Por todos os lados, restos de metal retorcido e carne humana torrada. Atordoado pela força da explosão rastejo até meu amigo que recobra a consciência lentamente.
Demoramos alguns minutos para nos recuperarmos. Beto pergunta por Sebo. Durante o resgate frustrado não nos demos conta que o nosso amigo desapareceu. Caminhamos lentamente pela rua à sua procura, não o encontramos. Onde aquele maluco se meteu? Concluímos que Sebo havia seguido em frente e reiniciamos a caminhada. Olho desolado para minha roupa repleta de sangue e gordura humana, o cheiro me causa náuseas, mas me mantenho forte e sigo em frente. Beto resmunga baixinho uma oração, acho que um Pai Nosso, olhando fixamente para o chão com os punhos cerrados.
Demoramos alguns minutos até chegarmos à João Pessoa, a imensa avenida nos proporciona uma visão panorâmica da região sul da cidade. Ao longe, enxergamos um grande clarão, provavelmente um incêndio. Um aglomerado de carros tenta seguir pela rua, mas são impedidos pela queda de um outdoor que levou consigo os fios e os postes.
Passamos alguns minutos traçando alternativas para o melhor trajeto para casa. Proponho seguirmos para a avenida Oswaldo Aranha, assim poderíamos chegar em vinte minutos até o meu apartamento. Beto concorda e propõe atalharmos por dentro do Parque Farroupilha. Hesito, a reputação do parque não é das melhores. Por se tratar de um lugar gigantesco e inóspito, à noite parecia o cenário perfeito para se cometer crimes.
Sem discordar, aceno positivo e entramos no parque. Nos primeiros metros notamos que a ideia foi péssima, mas encaramos com coragem, sem dar o braço a torcer. Inconscientemente mantemos um pacto de silêncio. Nossa respiração fica suave. Pressentimos que qualquer barulho denunciaria nossa presença e caminhamos cuidadosamente, observando todos os lados. Nossa visão não ia a mais que dois metros. Seguimos suportando a tensão mergulhados na escuridão. Caminhamos sobre lodo, galhos e lixo. Quando já podíamos enxergar, entre as árvores, a claridade da Oswaldo, Beto puxa minha camiseta, fazendo sinal de silêncio.

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Minha consciência pesa e meus músculos amolecem. Minha boa ação, na verdade, foi o estopim para a morte brutal de duas pessoas. Mas o que eu poderia fazer? Repentinamente, sou arremessado contra o chão, minha pele queima e meus ouvidos zumbem. Olho para o carro, ele acabara de explodir. Por todos os lados, restos de metal retorcido e carne humana torrada. Atordoado pela força da explosão rastejo até meu amigo que recobra a consciência lentamente.
Demoramos alguns minutos para nos recuperarmos. Beto pergunta por Sebo. Durante o resgate frustrado não nos demos conta que o nosso amigo desapareceu. Caminhamos lentamente pela rua à sua procura, não o encontramos. Onde aquele maluco se meteu? Concluímos que Sebo havia seguido em frente e reiniciamos a caminhada. Olho desolado para minha roupa repleta de sangue e gordura humana, o cheiro me causa náuseas, mas me mantenho forte e sigo em frente. Beto resmunga baixinho uma oração, acho que um Pai Nosso, olhando fixamente para o chão com os punhos cerrados.
Demoramos alguns minutos até chegarmos à João Pessoa, a imensa avenida nos proporciona uma visão panorâmica da região sul da cidade. Ao longe, enxergamos um grande clarão, provavelmente um incêndio. Um aglomerado de carros tenta seguir pela rua, mas são impedidos pela queda de um outdoor que levou consigo os fios e os postes.
Passamos alguns minutos traçando alternativas para o melhor trajeto para casa. Proponho seguirmos para a avenida Oswaldo Aranha, assim poderíamos chegar em vinte minutos até o meu apartamento. Beto concorda e propõe atalharmos por dentro do Parque Farroupilha. Hesito, a reputação do parque não é das melhores. Por se tratar de um lugar gigantesco e inóspito, à noite parecia o cenário perfeito para se cometer crimes.
Sem discordar, aceno positivo e entramos no parque. Nos primeiros metros notamos que a ideia foi péssima, mas encaramos com coragem, sem dar o braço a torcer. Inconscientemente mantemos um pacto de silêncio. Nossa respiração fica suave. Pressentimos que qualquer barulho denunciaria nossa presença e caminhamos cuidadosamente, observando todos os lados. Nossa visão não ia a mais que dois metros. Seguimos suportando a tensão mergulhados na escuridão. Caminhamos sobre lodo, galhos e lixo. Quando já podíamos enxergar, entre as árvores, a claridade da Oswaldo, Beto puxa minha camiseta, fazendo sinal de silêncio.

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