Tormenta - Leonardo Duprates
Leonardo Duprates
Leonardo Duprates desenvolvedor de software, compositor, baixista e escritor.
Fã de Edgar Allan Poe e H.P. Lovercraft, foi nos roteiros de R.F. Lucchetti e nos filmes de José Mojica Marins que buscou inspiração para escrever seus contos de terror.









Tormenta

Seus olhos se arregalam e se movimentam para todos os lados à procura do perigo. Permaneço estático, me concentrando ao máximo para tentar encontrar a causa da nossa parada. O silêncio é violado. Um gemido agonizante, um choro torturante que lentamente desaparece. Beto, sem aviso, começa a caminhar desorientado em meio à escuridão buscando a origem da lamúria. Em voz baixa, peço para que pare, mas ele ignora e segue imprudentemente pela mata.
Apreensivo, corro até agarrá-lo pelo ombro. Suplico que pare. Quando consigo sua atenção, somos assaltados por um grito de dor que ecoa entre os troncos, arrepiando a minha espinha. A angústia toma meu espírito e incorporo a insensatez que outra hora possuía meu amigo. Corro guiado pelo som que vaga ininterruptamente cada vez mais alto. Percorremos alguns metros até uma pequena clareira e nos deparamos com uma cena que enjaula nossa mente no inferno.
Uma menina, completamente nua, deitada de bruços sobre uma mistura de terra e decomposição de restos orgânicos. Sua pele clara e delicada se destaca na escuridão, o corpo é magro e delineado, tento evitar, mas me sinto atraído e fico parado observando. Beto salta em meio ao barro agarrando o corpo e virando-o. É Clara!
Um esguicho de sangue voa. A garganta da pobrezinha havia sido cortada, seus olhos estavam vermelhos e o seu rosto inchado pelo esforço falho de respirar. A ferida havia ficado submersa no meio do lodo que, curiosamente, estancou-a, estendendo a agonia da pobre moribunda. Ao virá-la, Beto abreviou seu sofrimento, matando-a.
Eu continuo a observá-la, uma mistura de sentimentos e pensamentos, que me envergonho de descrever, me perturbam. Luto contra a vontade de olhar seu corpo. Na tentativa de afastar o sadismo que toma conta de mim, grito para partirmos. Beto não me escuta. A menina se contrai, enrijecendo seu corpo nú. Da ferida a vida escapa dando lugar à morte. Clara está morta!
O corpo esfolado, repleto de hematomas, cortado e desvigorado me excita. Continuo a gritar, cada vez com mais ira. Em um acesso de raiva, puxo Beto pelo colarinho e o acerto com um soco no rosto. Ele cai sobre o lodo ao lado de Clara. Meu melhor amigo soluçava em frangalhos. Em transe, sigo através das árvores até voltar a enxergar a avenida Oswaldo Aranha, meu destino. Olho para trás e vejo Beto me seguindo hesitante. Mal consigo olhar para o seu rosto, a agressão que acabei de desferir inchou o seu olho esquerdo, a ponto de formar um coágulo que praticamente o fechou. Só tinha visto uma lesão assim em uma luta de boxe na televisão.

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Seus olhos se arregalam e se movimentam para todos os lados à procura do perigo. Permaneço estático, me concentrando ao máximo para tentar encontrar a causa da nossa parada. O silêncio é violado. Um gemido agonizante, um choro torturante que lentamente desaparece. Beto, sem aviso, começa a caminhar desorientado em meio à escuridão buscando a origem da lamúria. Em voz baixa, peço para que pare, mas ele ignora e segue imprudentemente pela mata.
Apreensivo, corro até agarrá-lo pelo ombro. Suplico que pare. Quando consigo sua atenção, somos assaltados por um grito de dor que ecoa entre os troncos, arrepiando a minha espinha. A angústia toma meu espírito e incorporo a insensatez que outra hora possuía meu amigo. Corro guiado pelo som que vaga ininterruptamente cada vez mais alto. Percorremos alguns metros até uma pequena clareira e nos deparamos com uma cena que enjaula nossa mente no inferno.
Uma menina, completamente nua, deitada de bruços sobre uma mistura de terra e decomposição de restos orgânicos. Sua pele clara e delicada se destaca na escuridão, o corpo é magro e delineado, tento evitar, mas me sinto atraído e fico parado observando. Beto salta em meio ao barro agarrando o corpo e virando-o. É Clara!
Um esguicho de sangue voa. A garganta da pobrezinha havia sido cortada, seus olhos estavam vermelhos e o seu rosto inchado pelo esforço falho de respirar. A ferida havia ficado submersa no meio do lodo que, curiosamente, estancou-a, estendendo a agonia da pobre moribunda. Ao virá-la, Beto abreviou seu sofrimento, matando-a.
Eu continuo a observá-la, uma mistura de sentimentos e pensamentos, que me envergonho de descrever, me perturbam. Luto contra a vontade de olhar seu corpo. Na tentativa de afastar o sadismo que toma conta de mim, grito para partirmos. Beto não me escuta. A menina se contrai, enrijecendo seu corpo nú. Da ferida a vida escapa dando lugar à morte. Clara está morta!
O corpo esfolado, repleto de hematomas, cortado e desvigorado me excita. Continuo a gritar, cada vez com mais ira. Em um acesso de raiva, puxo Beto pelo colarinho e o acerto com um soco no rosto. Ele cai sobre o lodo ao lado de Clara. Meu melhor amigo soluçava em frangalhos. Em transe, sigo através das árvores até voltar a enxergar a avenida Oswaldo Aranha, meu destino. Olho para trás e vejo Beto me seguindo hesitante. Mal consigo olhar para o seu rosto, a agressão que acabei de desferir inchou o seu olho esquerdo, a ponto de formar um coágulo que praticamente o fechou. Só tinha visto uma lesão assim em uma luta de boxe na televisão.

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