Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Loures Jahnke
Não gosto muito de falar de mim mesmo, não ao público, pelo menos. Por mais narcisista que seja, prefiro lamber-me às escondidas e gozar minha satisfação no reflexo de minhas dúvidas... Talvez não seja bem assim... talvez sim, um pouquinho. Na verdade apenas considero notas autobiográficas quase tão maçantes quanto currículos acadêmicos, tomados de orgulho, pose e egos inflados. Ou seja, não tem como ser imparcial quando se fala de si mesmo. “Publique ou pereça” jamais foi meu lema! Mas poucas cervejas foram necessárias para convencer-me a participar do Projeto Maldohorror. Bastaram, na verdade, a amizade e o entusiasmo nos olhos do Baiestorf, do Toniolli e do Borto. Elio Copini não estava muito entusiasmado... estava um pouco ébrio e vestido de pastor pentecostal com um calor de 40 graus, mas fez algumas piadas infames que divertiram muito a assistência. Obrigado, a todos, pelo honroso convite. Então... sou quase, um pouco e muito de várias coisas. Quase administrador, quase cientista social, quase teólogo (grrrrr!). Sou um pouco agricultor, um pouco marceneiro, um pouco carpinteiro, um pouco ator, um pouco projetista. Sou muito marido (da Elisiane), sou muito pai (da Morgana, da Isabela e do Lourenzo), sou muito leitor, sou muito fã da Canibal... Noutro dia, conversando com J. P. Sartre, dizia-me ele: “Meu jovem, a liberdade é um preço que se paga à vida com prazer...” Por tudo isso, sou Poeta, sou Escritor. Gosto da liberdade na estrutura da pena, que baila solícita e maliciosa no virginal branco do papel. Aprecio a ‘desrotina’ que o escrever promove. Sou enamorado da linguagem, amante impetuoso da acidez, da malícia, da ironia, do escracho; sofrimento, dor, inquietação, angústia excitam e incitam a querer mais. Loucura, ah!, loucura humana, com suas longas e sensuais tranças escandinavas, quanto a dizer... quantos sussurros... quanto a calar....





O Jovem Kurtz – Segunda Parte

— Como se fossem diabos vestidos de anjos?

— Isso meu filho… isso mesmo! Agora preciso que me prometa uma coisa.

— O que mamãe?

— Se você desconfiar que algo parecido possa acontecer novamente, não importa quem for… mesmo que seja o bispo, eu quero que prometa que vai me contar.

— E se for o Papa?

— Sim, o Papa também. Prometa!

— Sim, eu prometo que vou contar pra senhora.

— Muito bem.

— E o que a senhora vai fazer? Vai matar o Papa?

— Se for preciso, sou capaz de fazer qualquer coisa para protegê-lo, meu filho. Por isso, também vou prometer algo. Prometo que jamais você vai sofrer qualquer mal novamente.

Um sorriso… Lágrimas.

— Não vamos mais voltar para casa, mamãe?

— Não querido… aquele lugar não era nossa casa de verdade. A nossa casa fica na Alemanha, no Palatinado. Seus avós vão adorar conhecer você. Agora preste bem atenção! Sempre que nos perguntarem quem somos e o que fazemos, vamos dizer que morávamos no subúrbio de Paris, que seu pai morreu de uma infecção no apêndice e que estamos voltando para Trier, onde moram os meus pais, porque estávamos passando necessidades sozinhos. Compreendeu?

— Sim mamãe. O meu pai morreu de verdade? Foi a senhora que o matou?

— Cristo Jesus, meu filho! Jamais repita isso novamente. Não matei seu pai. O que aconteceu na abadia foi algo muito, mas muito triste; não sinto orgulho do que fiz. Agi no impulso de defendê-lo daquilo que estavam lhe obrigando a fazer. Quanto ao seu pai, a família dele não nos quis por perto e a sua avó paterna nos mandou para aquele lugar.

— Por que meu pai não me quis?

— Eu não sei meu querido… eu não sei! Na verdade suspeito que seu pai nem sabe de você, e para nossa segurança, vamos cuidar para que as coisas continuem como estão. De qualquer modo, as coisas no mundo não são assim tão simples de se compreender… Não quero que se preocupe com isso agora. Quando crescer você vai entender melhor como isso tudo funciona. Agora vamos, ainda temos um longo caminho pela frente até o anoitecer e precisamos encontrar uma estalagem… não queremos dormir ao relento. Ou queremos?

— Não mamãe. Prefiro dormir em uma cama.

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Loures Jahnke
O Jovem Kurtz – Segunda Parte

— Como se fossem diabos vestidos de anjos?

— Isso meu filho… isso mesmo! Agora preciso que me prometa uma coisa.

— O que mamãe?

— Se você desconfiar que algo parecido possa acontecer novamente, não importa quem for… mesmo que seja o bispo, eu quero que prometa que vai me contar.

— E se for o Papa?

— Sim, o Papa também. Prometa!

— Sim, eu prometo que vou contar pra senhora.

— Muito bem.

— E o que a senhora vai fazer? Vai matar o Papa?

— Se for preciso, sou capaz de fazer qualquer coisa para protegê-lo, meu filho. Por isso, também vou prometer algo. Prometo que jamais você vai sofrer qualquer mal novamente.

Um sorriso… Lágrimas.

— Não vamos mais voltar para casa, mamãe?

— Não querido… aquele lugar não era nossa casa de verdade. A nossa casa fica na Alemanha, no Palatinado. Seus avós vão adorar conhecer você. Agora preste bem atenção! Sempre que nos perguntarem quem somos e o que fazemos, vamos dizer que morávamos no subúrbio de Paris, que seu pai morreu de uma infecção no apêndice e que estamos voltando para Trier, onde moram os meus pais, porque estávamos passando necessidades sozinhos. Compreendeu?

— Sim mamãe. O meu pai morreu de verdade? Foi a senhora que o matou?

— Cristo Jesus, meu filho! Jamais repita isso novamente. Não matei seu pai. O que aconteceu na abadia foi algo muito, mas muito triste; não sinto orgulho do que fiz. Agi no impulso de defendê-lo daquilo que estavam lhe obrigando a fazer. Quanto ao seu pai, a família dele não nos quis por perto e a sua avó paterna nos mandou para aquele lugar.

— Por que meu pai não me quis?

— Eu não sei meu querido… eu não sei! Na verdade suspeito que seu pai nem sabe de você, e para nossa segurança, vamos cuidar para que as coisas continuem como estão. De qualquer modo, as coisas no mundo não são assim tão simples de se compreender… Não quero que se preocupe com isso agora. Quando crescer você vai entender melhor como isso tudo funciona. Agora vamos, ainda temos um longo caminho pela frente até o anoitecer e precisamos encontrar uma estalagem… não queremos dormir ao relento. Ou queremos?

— Não mamãe. Prefiro dormir em uma cama.

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