Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Lucas Vitoriano
Lucas Vitoriano é formado em História pela Universidade Federal do Ceará e possui especialização em Docência no Ensino Superior. Já teve vários contos selecionados para diversas antologias e possui romances escritos, porém ainda em processo de publicação. Amante de mitologia grega, fantasia e terror, a escrita é uma constante em sua vida. Está sempre revisando um romance enquanto já escreve o próximo.







A caçada

 

um rugido de dor e fúria. Sangue de um vermelho tão escuro que mais parecia negro escorreu da ferida recém aberta. Era grosso e denso, com um cheiro fétido e repugnante.

Em um estado normal, o stalcaire teria fugido, mas o frenesi ainda o dominava e isso significava que continuaria a lutar até seu último suspiro.Ortie ainda sacou o seu punhal da cintura, mas antes que pudesse usá-lo o stalcaire saltou sobre ele, derrubando-o com seu peso e cravando suas presas em seu pescoço. Ele gritou, engasgando no próprio sangue, os braços perderam a força e o punhal caiu no chão sem sequer ser usado.

Enquanto tinha o pescoço sendo devorado furiosamente, instantes antes de morrer, Ortie ainda conseguiu ver Susy, a amiga vira-lhe as costas e correra, apavorada, deixando-o a própria sorte. Essa visão machucara-o quase tanto os dentes do stalcaire.

Enquanto a vida esvaia de seu corpo, o caçador fitou o céu noturno e, em seus últimos momentos, imaginou como era no passado, quando a luz banhava tudo abaixo do solo. Conseguiu ver, com a clarividência que só os moribundos possuem, a imensa bola de luz que chamavam de sol, grandiosa e quente, acolhendo-o com seus raios luminosos.

Quando morreu, estava em paz, com um sorriso estampado no rosto. Para Susy e os demais, a vida continuaria sofrida, com apenas escuridão por todos os lados, mas ele vira a luz e ela era bela e gentil. Pela luz, tudo valia a pena, pois era melhor vislumbrá-la por um mísero instante sequer do que permanecer vagando na escuridão, por anos a fio, sem jamais ser agraciado com sua presença.

Ortie não sentiu-se triste por morrer, mas o ficou por não poder dividir com alguém seu encanto em ver o sol, mesmo que apenas em delírio. Ele se fora, devorado pelo stalcaire. Quanto a Susy, vagara de volta a colônia, mas nada garante que tenha chegado sã e salva lá, pois o caminho é árduo e muitas criaturas, mais ferozes que um stalcaire, vivem a espreita, prontas para matar qualquer um que cruze

Nenhum dos dois estava satisfeito com a ideia de se afastarem tanto das colônias, mas a comida estava escassa e, se não voltassem com algo para alimentar os aldeões, era bem capaz que alguns deles morressem naquela noite. Ortie ia a frente, carregando a pesada lança de madeira em sua mão direita. Um pouco atrás, Susy o acompanhava, o arco nas mãos e uma aljava carregada de flechas nas costas. A paisagem era uma imensidão árida e infértil, com moitas de folhas secas surgindo esporadicamente aqui e ali. A noite reinava no céu, absoluta e imponente. Há muito tempo ela estava lá, pois o sol findara-se a séculos atrás, deixando a humanidade e todos os outros seres privados de sua luz.

Por isso, todo o mundo estava morrendo. Como uma pessoa desnutrida, ele encolhia-se, encurvava-se e ficava anêmico. O mesmo acontecia com todos os seus habitantes, mas Susy e Ortie eram exceção. Foram bem alimentados desde o nascimento, nutridos com o melhor que aquele mundo podia proporcionar. A troca por essa dadiva era que deviam tornar-se caçadores e abandonar as colônias a procura de comida quase todos os dias. Para ambos, era uma troca justa, e eles ficavam gratos por terem músculos fortes e corpos resistentes quando a maioria das pessoas cresciam desnutridas e fracas.

— Veja isso Susy! — disse Ortie com animação, apontando a lâmina de sua lança para o chão — essas pegadas, é um stalcaire. Depois de abatermos ele, teremos garantido o jantar de muitos aldeões.

Ortie era corpulento, com ombros largos e cabeça raspada. Usava colares com dentes de stalcaires no pescoço, um dente para cada stalcaire que já havia matado. Susy não era tão musculosa, mas era mais discreta. Não trazia no corpo nenhum símbolo de suas façanhas nas caçadas, mas nem por isso podia-se dizer que era menos habilidosa. Possuía cabelos loiros, curtos, e um humor um tanto perverso e sádico. Ambos tinham pouco mais de vinte anos.

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Lucas Vitoriano
A caçada

 

um rugido de dor e fúria. Sangue de um vermelho tão escuro que mais parecia negro escorreu da ferida recém aberta. Era grosso e denso, com um cheiro fétido e repugnante.

Em um estado normal, o stalcaire teria fugido, mas o frenesi ainda o dominava e isso significava que continuaria a lutar até seu último suspiro.Ortie ainda sacou o seu punhal da cintura, mas antes que pudesse usá-lo o stalcaire saltou sobre ele, derrubando-o com seu peso e cravando suas presas em seu pescoço. Ele gritou, engasgando no próprio sangue, os braços perderam a força e o punhal caiu no chão sem sequer ser usado.

Enquanto tinha o pescoço sendo devorado furiosamente, instantes antes de morrer, Ortie ainda conseguiu ver Susy, a amiga vira-lhe as costas e correra, apavorada, deixando-o a própria sorte. Essa visão machucara-o quase tanto os dentes do stalcaire.

Enquanto a vida esvaia de seu corpo, o caçador fitou o céu noturno e, em seus últimos momentos, imaginou como era no passado, quando a luz banhava tudo abaixo do solo. Conseguiu ver, com a clarividência que só os moribundos possuem, a imensa bola de luz que chamavam de sol, grandiosa e quente, acolhendo-o com seus raios luminosos.

Quando morreu, estava em paz, com um sorriso estampado no rosto. Para Susy e os demais, a vida continuaria sofrida, com apenas escuridão por todos os lados, mas ele vira a luz e ela era bela e gentil. Pela luz, tudo valia a pena, pois era melhor vislumbrá-la por um mísero instante sequer do que permanecer vagando na escuridão, por anos a fio, sem jamais ser agraciado com sua presença.

Ortie não sentiu-se triste por morrer, mas o ficou por não poder dividir com alguém seu encanto em ver o sol, mesmo que apenas em delírio. Ele se fora, devorado pelo stalcaire. Quanto a Susy, vagara de volta a colônia, mas nada garante que tenha chegado sã e salva lá, pois o caminho é árduo e muitas criaturas, mais ferozes que um stalcaire, vivem a espreita, prontas para matar qualquer um que cruze

Nenhum dos dois estava satisfeito com a ideia de se afastarem tanto das colônias, mas a comida estava escassa e, se não voltassem com algo para alimentar os aldeões, era bem capaz que alguns deles morressem naquela noite. Ortie ia a frente, carregando a pesada lança de madeira em sua mão direita. Um pouco atrás, Susy o acompanhava, o arco nas mãos e uma aljava carregada de flechas nas costas. A paisagem era uma imensidão árida e infértil, com moitas de folhas secas surgindo esporadicamente aqui e ali. A noite reinava no céu, absoluta e imponente. Há muito tempo ela estava lá, pois o sol findara-se a séculos atrás, deixando a humanidade e todos os outros seres privados de sua luz.

Por isso, todo o mundo estava morrendo. Como uma pessoa desnutrida, ele encolhia-se, encurvava-se e ficava anêmico. O mesmo acontecia com todos os seus habitantes, mas Susy e Ortie eram exceção. Foram bem alimentados desde o nascimento, nutridos com o melhor que aquele mundo podia proporcionar. A troca por essa dadiva era que deviam tornar-se caçadores e abandonar as colônias a procura de comida quase todos os dias. Para ambos, era uma troca justa, e eles ficavam gratos por terem músculos fortes e corpos resistentes quando a maioria das pessoas cresciam desnutridas e fracas.

— Veja isso Susy! — disse Ortie com animação, apontando a lâmina de sua lança para o chão — essas pegadas, é um stalcaire. Depois de abatermos ele, teremos garantido o jantar de muitos aldeões.

Ortie era corpulento, com ombros largos e cabeça raspada. Usava colares com dentes de stalcaires no pescoço, um dente para cada stalcaire que já havia matado. Susy não era tão musculosa, mas era mais discreta. Não trazia no corpo nenhum símbolo de suas façanhas nas caçadas, mas nem por isso podia-se dizer que era menos habilidosa. Possuía cabelos loiros, curtos, e um humor um tanto perverso e sádico. Ambos tinham pouco mais de vinte anos.

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