Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Lucas Vitoriano
Lucas Vitoriano é formado em História pela Universidade Federal do Ceará e possui especialização em Docência no Ensino Superior. Já teve vários contos selecionados para diversas antologias e possui romances escritos, porém ainda em processo de publicação. Amante de mitologia grega, fantasia e terror, a escrita é uma constante em sua vida. Está sempre revisando um romance enquanto já escreve o próximo.







A coisa que rasteja

 

Foram precisas apenas três semanas vivendo na casa para que eu percebesse que havia algo errado. Bem, no fundo eu sempre soubera, afinal, por que uma casa tão luxuosa estava sendo vendida a um preço tão abaixo do valor de mercado?

Eu conhecia os boatos de que o lugar era amaldiçoado, antro de alguma coisa sinistra, mas não liguei para isso. Disse a mim mesmo que essas superstições ridículas poderiam afastar a maioria das pessoas, mas não uma pessoa como eu, que só acredita no que os olhos conseguem ver.

E assim comecei a morar na casa. No começo, pensei que os barulhos de algo se arrastando e os sons de grunhidos baixos fossem apenas coisas da minha imaginação. Eu sabia que vinham do porão, mas o cômodo estava cheio de caixas, sujo de poeira e coberto de teias de aranha. Além do mais, a luz estava quebrada e, por não ter janelas, entrar ali seria o mesmo que se atirar na escuridão. Assim sendo, evitei o lugar e disse a mim mesma que a causa daqueles sons era outra, uma completamente racional, que nada tinha haver com os ridículos boatos que rondavam a casa.

Assim sendo, comecei a culpar, injustamente, meu cachorro Rex por isso. Ele era minha única companhia na casa, visto que sou solteiro e não tenho filhos. Era um animal calmo, que gostava de ficar na calçada, descansando ao sol e, sempre que tinha a oportunidade, corria atrás de um carteiro para se divertir um pouco.

Entretanto, quando Rex apareceu morto, com marcas de garras profundas em seu corpo já frio e fedendo a carne em decomposição, percebi que havia mais alguém, ou algo, comigo na casa. As marcas eram horríveis e a visão do meu animal de estimação morto ainda me aterroriza.

Talvez eu devesse sair da casa, sentia mesmo que isso era o melhor, entretanto, sempre fui orgulhoso demais para voltar atrás. Não, não era orgulho, era estupidez mesmo. Seja como for, permaneci aonde estava, fingindonão ouvir os sons da coisa rastejando nem seus grunhidos, cada vez mais impacientes. Por várias vezes, dirigi-me até o porão, disposto a resolver de uma vez por todas o problema.

Eu chegava a descer os primeiros degraus, com uma lanterna em mãos, mas a visão dos ratos esgueirando-se ligeiros pelo chão, o cheiro de poeira e de algo a mais, que eu não sabia identificar, e os sons que só ficavam mais altos daquela criatura misteriosa, tudo isso me fazia subir novamente as escadas e fechar a porta do cômodo. Ao final dessas tentativas, eu sempre repetia para mim mesmo que não havia nada ali embaixo além de algum animal muito esquisito e que os boatos sobre a casa ser amaldiçoados eram pura bobagem.

Um dia porém, já não aguentando mais meu inquilino misterioso e incomodo, resolvi tomar atitudes mais drásticas. A casa era minha afinal, e eu não poderia deixar que ratos, gambas ou seja lá o que fosse que vivesse no porão me fizesse recuar.

Adianto que, em minha cabeça, toda aquela situação devia ser obra de algum animal. Embora, refletindo agora sobre o ocorrido, me pergunto como puder achar isso, já que não consigo pensar em que animal poderia deixar Rex naquele estado em que o encontrei no dia de sua morte. As marcas das garras, a imagem ainda me é bem vivida, deixaram a pele em volta da ferida enegrecida, de onde pus escorria de forma repulsiva. Não tinha como um animal fazer isso, ao menos não um animal desse mundo.

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Lucas Vitoriano
A coisa que rasteja

 

Foram precisas apenas três semanas vivendo na casa para que eu percebesse que havia algo errado. Bem, no fundo eu sempre soubera, afinal, por que uma casa tão luxuosa estava sendo vendida a um preço tão abaixo do valor de mercado?

Eu conhecia os boatos de que o lugar era amaldiçoado, antro de alguma coisa sinistra, mas não liguei para isso. Disse a mim mesmo que essas superstições ridículas poderiam afastar a maioria das pessoas, mas não uma pessoa como eu, que só acredita no que os olhos conseguem ver.

E assim comecei a morar na casa. No começo, pensei que os barulhos de algo se arrastando e os sons de grunhidos baixos fossem apenas coisas da minha imaginação. Eu sabia que vinham do porão, mas o cômodo estava cheio de caixas, sujo de poeira e coberto de teias de aranha. Além do mais, a luz estava quebrada e, por não ter janelas, entrar ali seria o mesmo que se atirar na escuridão. Assim sendo, evitei o lugar e disse a mim mesma que a causa daqueles sons era outra, uma completamente racional, que nada tinha haver com os ridículos boatos que rondavam a casa.

Assim sendo, comecei a culpar, injustamente, meu cachorro Rex por isso. Ele era minha única companhia na casa, visto que sou solteiro e não tenho filhos. Era um animal calmo, que gostava de ficar na calçada, descansando ao sol e, sempre que tinha a oportunidade, corria atrás de um carteiro para se divertir um pouco.

Entretanto, quando Rex apareceu morto, com marcas de garras profundas em seu corpo já frio e fedendo a carne em decomposição, percebi que havia mais alguém, ou algo, comigo na casa. As marcas eram horríveis e a visão do meu animal de estimação morto ainda me aterroriza.

Talvez eu devesse sair da casa, sentia mesmo que isso era o melhor, entretanto, sempre fui orgulhoso demais para voltar atrás. Não, não era orgulho, era estupidez mesmo. Seja como for, permaneci aonde estava, fingindonão ouvir os sons da coisa rastejando nem seus grunhidos, cada vez mais impacientes. Por várias vezes, dirigi-me até o porão, disposto a resolver de uma vez por todas o problema.

Eu chegava a descer os primeiros degraus, com uma lanterna em mãos, mas a visão dos ratos esgueirando-se ligeiros pelo chão, o cheiro de poeira e de algo a mais, que eu não sabia identificar, e os sons que só ficavam mais altos daquela criatura misteriosa, tudo isso me fazia subir novamente as escadas e fechar a porta do cômodo. Ao final dessas tentativas, eu sempre repetia para mim mesmo que não havia nada ali embaixo além de algum animal muito esquisito e que os boatos sobre a casa ser amaldiçoados eram pura bobagem.

Um dia porém, já não aguentando mais meu inquilino misterioso e incomodo, resolvi tomar atitudes mais drásticas. A casa era minha afinal, e eu não poderia deixar que ratos, gambas ou seja lá o que fosse que vivesse no porão me fizesse recuar.

Adianto que, em minha cabeça, toda aquela situação devia ser obra de algum animal. Embora, refletindo agora sobre o ocorrido, me pergunto como puder achar isso, já que não consigo pensar em que animal poderia deixar Rex naquele estado em que o encontrei no dia de sua morte. As marcas das garras, a imagem ainda me é bem vivida, deixaram a pele em volta da ferida enegrecida, de onde pus escorria de forma repulsiva. Não tinha como um animal fazer isso, ao menos não um animal desse mundo.

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