Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Lucas Vitoriano
Lucas Vitoriano é formado em História pela Universidade Federal do Ceará e possui especialização em Docência no Ensino Superior. Já teve vários contos selecionados para diversas antologias e possui romances escritos, porém ainda em processo de publicação. Amante de mitologia grega, fantasia e terror, a escrita é uma constante em sua vida. Está sempre revisando um romance enquanto já escreve o próximo.







A coisa que rasteja

Mas estou divagando demais, irei voltar a história. Como estava dizendo, resolvi tomar atitudes drásticas para resolver aquele problema. Tenho um amigo que é policial, e ele me devia um favor, sendo assim, resolvi cobrar. Pedi-lhe que me arranjasse uma arma carregada, com munição extra. Ele relutou no começo, mas eu o havia ajudado no passado e ele não podia negar-me ajuda, então, a contragosto, concordou em me dar o que pedi.

Dois dias depois, ele me arranjara uma pistola com dois pentes de munição extra. Estava nervoso, com medo que eu fizesse alguma besteira. Acho que ele estava com mais medo de que poderia lhe acontecer por ter me fornecido a arma do que com minha segurança. Entretanto, fosse como fosse, ele havia feito o que prometera e eu estava feliz com isso.

Foi então que desci ao porão, lanterna em uma mão e pistola na outra. Senti-me como aqueles personagens dos filmes de terror, mas ironicamente, não me atentei para o final sangrento que quase todos eles têm. Desci as escadas com passos firmes. A luz da minha lanterna ia de um lado para o outro, procurando a origens dos grunhidos e do som da coisa que rastejava.

Eu precisava ter cuidado para não esbarrar nas inúmeras caixas que estavam em meu caminho. O porão estava cheio delas, mas não me dei ao trabalho de olhar o que havia dentro. Os sons iam ficando mais altos. Eu lembro que cheguei a gritar “Saia dai sua coisa nojenta!” ou algo parecido. Esse foi o meu primeiro erro.

Ouvi o som de algo rastejando e, poucos instantes depois, dois olhos amarelos e esbugalhados me fitaram da escuridão. Soltei um grito de pavor e, por impulso, iluminei aquela coisa com a luz da lanterna.

O que vi é difícil de descrever. Em algum momento aquela coisa fora uma pessoa, mas o que estava a minha frente não passava de uma criatura horrenda em decomposição. A pele tinha a palidez da morte, e haviam partes faltando. Eu conseguia ver suas costelas devido a uma ferida enorme em sua barriga, o rosto era o de o que um dia fora um homem. A boca estava aberta, com um líquido podre e esbranquiçado escorrendo dos lábios.

Em total desespero, descarreguei o pente da arma de uma vez na criatura. Esse foi meu segundo erro. Ela se contorcia a cada tiro, pedaços de pele saltando. Não escorreu sangue das feridas, talvez nem houvesse mais sangue naquele corpo.

A coisa grunhiu de dor varias vezes, mas quando os tiros cessaram, por falta de munição, ela ergueu-se, furiosa e faminta, e eu pude ver o que estava a minha frente. A parte superior do corpo eu já havia visto, mas a inferior não, era um corpo de centopeia, negro e nojento, com centenas de patinhas que se mexiam freneticamente. Apoiada em seu corpo animalesco, a coisa alcançava uns dois metros e meio de altura. Sua cabeça chegava a bater no teto.

Apavorado, tentei recarregar a arma, mas antes que conseguisse fazê-lo a coisa avançou sobre mim derrubando-me no chão e fincando suas garras em minhas costelas. A dor foi indescritível e eu não sei como não desmaiei por isso. Desesperado, consegui recarregar a arma. A criatura estava sobre mim, seu hálito podre invadindo minhas narinas e quase me fazendo vomitar.

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Lucas Vitoriano
A coisa que rasteja

Mas estou divagando demais, irei voltar a história. Como estava dizendo, resolvi tomar atitudes drásticas para resolver aquele problema. Tenho um amigo que é policial, e ele me devia um favor, sendo assim, resolvi cobrar. Pedi-lhe que me arranjasse uma arma carregada, com munição extra. Ele relutou no começo, mas eu o havia ajudado no passado e ele não podia negar-me ajuda, então, a contragosto, concordou em me dar o que pedi.

Dois dias depois, ele me arranjara uma pistola com dois pentes de munição extra. Estava nervoso, com medo que eu fizesse alguma besteira. Acho que ele estava com mais medo de que poderia lhe acontecer por ter me fornecido a arma do que com minha segurança. Entretanto, fosse como fosse, ele havia feito o que prometera e eu estava feliz com isso.

Foi então que desci ao porão, lanterna em uma mão e pistola na outra. Senti-me como aqueles personagens dos filmes de terror, mas ironicamente, não me atentei para o final sangrento que quase todos eles têm. Desci as escadas com passos firmes. A luz da minha lanterna ia de um lado para o outro, procurando a origens dos grunhidos e do som da coisa que rastejava.

Eu precisava ter cuidado para não esbarrar nas inúmeras caixas que estavam em meu caminho. O porão estava cheio delas, mas não me dei ao trabalho de olhar o que havia dentro. Os sons iam ficando mais altos. Eu lembro que cheguei a gritar “Saia dai sua coisa nojenta!” ou algo parecido. Esse foi o meu primeiro erro.

Ouvi o som de algo rastejando e, poucos instantes depois, dois olhos amarelos e esbugalhados me fitaram da escuridão. Soltei um grito de pavor e, por impulso, iluminei aquela coisa com a luz da lanterna.

O que vi é difícil de descrever. Em algum momento aquela coisa fora uma pessoa, mas o que estava a minha frente não passava de uma criatura horrenda em decomposição. A pele tinha a palidez da morte, e haviam partes faltando. Eu conseguia ver suas costelas devido a uma ferida enorme em sua barriga, o rosto era o de o que um dia fora um homem. A boca estava aberta, com um líquido podre e esbranquiçado escorrendo dos lábios.

Em total desespero, descarreguei o pente da arma de uma vez na criatura. Esse foi meu segundo erro. Ela se contorcia a cada tiro, pedaços de pele saltando. Não escorreu sangue das feridas, talvez nem houvesse mais sangue naquele corpo.

A coisa grunhiu de dor varias vezes, mas quando os tiros cessaram, por falta de munição, ela ergueu-se, furiosa e faminta, e eu pude ver o que estava a minha frente. A parte superior do corpo eu já havia visto, mas a inferior não, era um corpo de centopeia, negro e nojento, com centenas de patinhas que se mexiam freneticamente. Apoiada em seu corpo animalesco, a coisa alcançava uns dois metros e meio de altura. Sua cabeça chegava a bater no teto.

Apavorado, tentei recarregar a arma, mas antes que conseguisse fazê-lo a coisa avançou sobre mim derrubando-me no chão e fincando suas garras em minhas costelas. A dor foi indescritível e eu não sei como não desmaiei por isso. Desesperado, consegui recarregar a arma. A criatura estava sobre mim, seu hálito podre invadindo minhas narinas e quase me fazendo vomitar.

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