Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Lucas Vitoriano
Lucas Vitoriano é formado em História pela Universidade Federal do Ceará e possui especialização em Docência no Ensino Superior. Já teve vários contos selecionados para diversas antologias e possui romances escritos, porém ainda em processo de publicação. Amante de mitologia grega, fantasia e terror, a escrita é uma constante em sua vida. Está sempre revisando um romance enquanto já escreve o próximo.







Seis Quarteirões

 

Bruno era um idiota, não, mais do que isso, ele era o idiota. Aquela era para ser uma noite para eles extravasarem, rirem, beberem muito e fazerem tudo que tinham direito. Era esse o plano, mas não foi isso que aconteceu.
Eu sei que eu tenho um relacionamento sério com meu namorado que está, a quase um ano, estudando em outro estado e, sim, eu sei que deveria ser fiel, mas sério, quem consegue ficar sozinha por tanto tempo? Eu gosto do meu namorado, mas a distância me deixa carente e quando eu encontrei um garoto muito legal na festa resolvi, só dessa vez, me permitir dar uma pulada de cerca e ficar com o cara.
Ele era bonito e parecia alguém realmente legal. Nós nos beijamos algumas vezes e foi ai que o Bruno apareceu. Ah, eu esqueci de falar, Bruno é meu melhor amigo, embora eu ache que ele não esteja merecendo esse posto no momento. E só para constar me chamo Carol.
Então como a história acabou? Eu estava ficando com o cara legal na festa e o Bruno estragou tudo, me deu uma bronca na frente de todo mundo dizendo que eu tinha namorado e blablabla. Eu sei que ele estava falando aquilo para o meu bem, mas eu fiquei puta da vida. Quem ele pensa que é para ficar se metendo na minha vida pessoal? O pior é que o cara que eu estava pegando, nem tive tempo de perguntar o nome dele, ficou igualmente irritado por estar com uma garota comprometida e acabou me dispensando. É, ele era mesmo um cara legal, o problema é que era legal demais.
Então foi assim que dei as costas ao Bruno e a festa e sai em plena duas e dez da madrugada rumo a minha casa. A boate não fica muito longe de onde moro, apenas seis quarteirões, então provavelmente o pior que pode me acontecer é ser surpreendida por um cão vira-lata fuçando nas latas de lixo ou coisa do tipo.
Começo a caminhar a passos pesados e apressados, bufando de raiva. A noite está totalmente silenciosa, não vejo nenhum carro nas ruas e toda a iluminação que tenho é dos postes e da lua.
– Merda de vida – resmungo para mim mesma. O álcool ainda está forte em meu sangue o que me deixa mais agitada e corajosa. Embora andar sozinha no meio da madrugada não seja necessariamente um sinal de coragem e sim de burrice.
Abraço meu próprio corpo devido ao frio. Deve estar fazendo uns dezessete graus e aqui estou, de minissaia e um top curtíssimo. A rua a qual caminho está totalmente deserta, vejo lojas a esquerda e a direita, todas obviamente fechadas. O silêncio ao meu redor é tão denso que chega a incomodar, mas tudo bem, não tem ninguém na rua certo? Não preciso me preocupar em ser atacada por um fantasma ou coisa do tipo.
Então meu celular toca me fazendo dar um pulo de susto. Meu coração provavelmente foi para a lua e voltou de tão apavorada que fiquei. Retirei o celular da bolsa e percebi que era Bruno quem ligava.
– Dane-se! – disse rejeitando a ligação.
Segui meu caminho tentando ignorar a total escuridão a minha volta. Aos poucos a raiva ia passando e meu bom senso acordava. O que eu estava fazendo? Voltando para casa sozinha as duas da madrugada? Isso era pedir para ser estuprada, ou morta ou… ambos. O medo começou a me invadir como um veneno, espalhando-se por cada célula minha.
– Não seja estupida Carol – disse para mim mesma em alto e bom som. Ouvir minha própria voz me acalmava um pouco, dava a sensação que tinha outra pessoa ali comigo dando a falsa sensação de segurança – são só seis quarteirões. Você anda muito mais do que isso todos os dias para ir até a faculdade.

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Lucas Vitoriano
Seis Quarteirões

 

Bruno era um idiota, não, mais do que isso, ele era o idiota. Aquela era para ser uma noite para eles extravasarem, rirem, beberem muito e fazerem tudo que tinham direito. Era esse o plano, mas não foi isso que aconteceu.
Eu sei que eu tenho um relacionamento sério com meu namorado que está, a quase um ano, estudando em outro estado e, sim, eu sei que deveria ser fiel, mas sério, quem consegue ficar sozinha por tanto tempo? Eu gosto do meu namorado, mas a distância me deixa carente e quando eu encontrei um garoto muito legal na festa resolvi, só dessa vez, me permitir dar uma pulada de cerca e ficar com o cara.
Ele era bonito e parecia alguém realmente legal. Nós nos beijamos algumas vezes e foi ai que o Bruno apareceu. Ah, eu esqueci de falar, Bruno é meu melhor amigo, embora eu ache que ele não esteja merecendo esse posto no momento. E só para constar me chamo Carol.
Então como a história acabou? Eu estava ficando com o cara legal na festa e o Bruno estragou tudo, me deu uma bronca na frente de todo mundo dizendo que eu tinha namorado e blablabla. Eu sei que ele estava falando aquilo para o meu bem, mas eu fiquei puta da vida. Quem ele pensa que é para ficar se metendo na minha vida pessoal? O pior é que o cara que eu estava pegando, nem tive tempo de perguntar o nome dele, ficou igualmente irritado por estar com uma garota comprometida e acabou me dispensando. É, ele era mesmo um cara legal, o problema é que era legal demais.
Então foi assim que dei as costas ao Bruno e a festa e sai em plena duas e dez da madrugada rumo a minha casa. A boate não fica muito longe de onde moro, apenas seis quarteirões, então provavelmente o pior que pode me acontecer é ser surpreendida por um cão vira-lata fuçando nas latas de lixo ou coisa do tipo.
Começo a caminhar a passos pesados e apressados, bufando de raiva. A noite está totalmente silenciosa, não vejo nenhum carro nas ruas e toda a iluminação que tenho é dos postes e da lua.
– Merda de vida – resmungo para mim mesma. O álcool ainda está forte em meu sangue o que me deixa mais agitada e corajosa. Embora andar sozinha no meio da madrugada não seja necessariamente um sinal de coragem e sim de burrice.
Abraço meu próprio corpo devido ao frio. Deve estar fazendo uns dezessete graus e aqui estou, de minissaia e um top curtíssimo. A rua a qual caminho está totalmente deserta, vejo lojas a esquerda e a direita, todas obviamente fechadas. O silêncio ao meu redor é tão denso que chega a incomodar, mas tudo bem, não tem ninguém na rua certo? Não preciso me preocupar em ser atacada por um fantasma ou coisa do tipo.
Então meu celular toca me fazendo dar um pulo de susto. Meu coração provavelmente foi para a lua e voltou de tão apavorada que fiquei. Retirei o celular da bolsa e percebi que era Bruno quem ligava.
– Dane-se! – disse rejeitando a ligação.
Segui meu caminho tentando ignorar a total escuridão a minha volta. Aos poucos a raiva ia passando e meu bom senso acordava. O que eu estava fazendo? Voltando para casa sozinha as duas da madrugada? Isso era pedir para ser estuprada, ou morta ou… ambos. O medo começou a me invadir como um veneno, espalhando-se por cada célula minha.
– Não seja estupida Carol – disse para mim mesma em alto e bom som. Ouvir minha própria voz me acalmava um pouco, dava a sensação que tinha outra pessoa ali comigo dando a falsa sensação de segurança – são só seis quarteirões. Você anda muito mais do que isso todos os dias para ir até a faculdade.

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