Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Lucas Vitoriano
Lucas Vitoriano é formado em História pela Universidade Federal do Ceará e possui especialização em Docência no Ensino Superior. Já teve vários contos selecionados para diversas antologias e possui romances escritos, porém ainda em processo de publicação. Amante de mitologia grega, fantasia e terror, a escrita é uma constante em sua vida. Está sempre revisando um romance enquanto já escreve o próximo.







Seis Quarteirões

E é verdade. Estudo gastronomia e vou para a aula de bicicleta todos os dias percorrendo mais de dez quarteirões. Mesmo assim uma coisa é andar de bicicleta em plena luz do dia e outra é caminhar a pé as duas da madrugada.
Sinto a escuridão me cercando de uma forma opressora. É como se a noite tivesse garras que tentassem me machucar. Digo novamente para mim mesma que estou sendo ridícula, a escuridão é apenas escuridão e nada mais, mesmo assim apresso os passos, só por precaução.
Ouço o barulho de algo se movendo as minhas costas, olho ao redor assustada, mas não vejo ninguém, apenas a rua vazia e uma fina camada de neblina que começava a se formar. Minhas pernas tremem e sinto vontade de correr, mas simplesmente paro de andar e olho para todos os lados a procura da origem do som.
– Tem alguém ai? – é uma pergunta idiota eu sei. E seu eu fosse um serialkiller ou um estuprador não iria responder. Mesmo assim não consegui evitar.
É claro que eu estou com medo, mas tentei ser firme e manter a compostura. Uma vez li em algum lugar que o medo corta mais afiado que uma espada e agora percebo que essa frase não podia estar mais correta. Respiro fundo duas vezes e tento me acalmar. Ouço o barulho de novo, parecem passos, só que mais silenciosos. Minha imaginação percorre a escuridão vendo vultos em cada forma, mas nenhum deles chega a se materializar. Afinal, são apenas vultos.
Ainda com as pernas tremulas recomeço a andar já tão desorientada que nem tenho mais certeza em que direção fica minha casa. Seis quarteirões não parecem tão pouca coisa assim e eu já me arrependi totalmente dessa ideia estupida de ter voltado a pé.
– Por favor se eu voltar para casa bem juro que nunca mais vou sequer pensar em trair meu namorado – digo baixinho desejando que Deus, o diabo, ou qualquer entidade que ouvisse essas palavras me desse proteção.
Mas ninguém ouviu e, se ouviu ignorou. Segui meu caminho aflita. Ainda ouvia o som de passos miúdos atrás de mim e sentia que algo me observava, mas seja lá o que fosse eu não conseguia vê-lo e, sinceramente, estava tão apavorada que nem queria.
Andei o mais rápido que pude. Procurava nem sequer olhar para os lados com medo de ver algum estranho ameaçador. Foi então que senti algo úmido em minhas pernas e dessa vez não consegui segurar o grito. Cambaleei assustada e quase tropecei em meus próprios pés. Precisei me apoiar na parede para não cair de cara no chão.
Foi então que, virando o rosto, eu o vi. Era uma criatura peluda com olhos que brilhavam em um verde fantasmagórico que mais pareciam duas joias do outro mundo. Ela se movia devagar, com passos cautelosos. A boca se abriu emitindo um som fino e expondo a fileira de dentes afiados da criatura.
Era um gato.
Sim, senti uma mistura de alivio, frustração e vergonha. Pelo menos não havia ninguém para presenciar aquele mico. Me agachei acariciando a cabeça do bichano que miou carinhosamente em resposta.
– Você me deu um baita susto sabia? Não faça isso de novo por favor.
Ele miou mais uma vez, lambeu minha mão e então correu pela rua deserta se perdendo de vista em um beco escuro qualquer. Respirei aliviada ao saber que meu maior medo ali era um gatinho abandonado. Eu só esperava que não houvessem mais coisas me vigiando nas sombras. Se um gato me fizera ter uma reação dessas eu teria um infarto só de ver uma pessoa.

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Lucas Vitoriano
Seis Quarteirões

E é verdade. Estudo gastronomia e vou para a aula de bicicleta todos os dias percorrendo mais de dez quarteirões. Mesmo assim uma coisa é andar de bicicleta em plena luz do dia e outra é caminhar a pé as duas da madrugada.
Sinto a escuridão me cercando de uma forma opressora. É como se a noite tivesse garras que tentassem me machucar. Digo novamente para mim mesma que estou sendo ridícula, a escuridão é apenas escuridão e nada mais, mesmo assim apresso os passos, só por precaução.
Ouço o barulho de algo se movendo as minhas costas, olho ao redor assustada, mas não vejo ninguém, apenas a rua vazia e uma fina camada de neblina que começava a se formar. Minhas pernas tremem e sinto vontade de correr, mas simplesmente paro de andar e olho para todos os lados a procura da origem do som.
– Tem alguém ai? – é uma pergunta idiota eu sei. E seu eu fosse um serialkiller ou um estuprador não iria responder. Mesmo assim não consegui evitar.
É claro que eu estou com medo, mas tentei ser firme e manter a compostura. Uma vez li em algum lugar que o medo corta mais afiado que uma espada e agora percebo que essa frase não podia estar mais correta. Respiro fundo duas vezes e tento me acalmar. Ouço o barulho de novo, parecem passos, só que mais silenciosos. Minha imaginação percorre a escuridão vendo vultos em cada forma, mas nenhum deles chega a se materializar. Afinal, são apenas vultos.
Ainda com as pernas tremulas recomeço a andar já tão desorientada que nem tenho mais certeza em que direção fica minha casa. Seis quarteirões não parecem tão pouca coisa assim e eu já me arrependi totalmente dessa ideia estupida de ter voltado a pé.
– Por favor se eu voltar para casa bem juro que nunca mais vou sequer pensar em trair meu namorado – digo baixinho desejando que Deus, o diabo, ou qualquer entidade que ouvisse essas palavras me desse proteção.
Mas ninguém ouviu e, se ouviu ignorou. Segui meu caminho aflita. Ainda ouvia o som de passos miúdos atrás de mim e sentia que algo me observava, mas seja lá o que fosse eu não conseguia vê-lo e, sinceramente, estava tão apavorada que nem queria.
Andei o mais rápido que pude. Procurava nem sequer olhar para os lados com medo de ver algum estranho ameaçador. Foi então que senti algo úmido em minhas pernas e dessa vez não consegui segurar o grito. Cambaleei assustada e quase tropecei em meus próprios pés. Precisei me apoiar na parede para não cair de cara no chão.
Foi então que, virando o rosto, eu o vi. Era uma criatura peluda com olhos que brilhavam em um verde fantasmagórico que mais pareciam duas joias do outro mundo. Ela se movia devagar, com passos cautelosos. A boca se abriu emitindo um som fino e expondo a fileira de dentes afiados da criatura.
Era um gato.
Sim, senti uma mistura de alivio, frustração e vergonha. Pelo menos não havia ninguém para presenciar aquele mico. Me agachei acariciando a cabeça do bichano que miou carinhosamente em resposta.
– Você me deu um baita susto sabia? Não faça isso de novo por favor.
Ele miou mais uma vez, lambeu minha mão e então correu pela rua deserta se perdendo de vista em um beco escuro qualquer. Respirei aliviada ao saber que meu maior medo ali era um gatinho abandonado. Eu só esperava que não houvessem mais coisas me vigiando nas sombras. Se um gato me fizera ter uma reação dessas eu teria um infarto só de ver uma pessoa.

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