Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Luís Amorim
Luís Amorim, natural de Oeiras, Portugal, escreve poesia e prosa desde 2005. Tem já escritas 1050 histórias com 50 livros de ficção publicados, entre os quais Almas, Fantasias, Flores, Terra Ausente, O Mapa, “Contos I”, “Contos II” e “Sonetos”. Tem numerosas participações em antologias literárias, revistas e jornais na Europa e Brasil.

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O pote

O chefe havia dito em altura distante que o pote estaria livre de companhias indesejáveis precisamente nestes momentos e durante mais alguns no veraneio que procurou paragens outras saindo do palacete vazio rumo à minha satisfação de poder ir em cobiça ao seu recheio. Poderia esperar dias, é bem certo, mas em situações destas já dizia ele, o chefe, convém actuar de pronto. E assim fiz, saltei o muro depois de recurso a escada acrescentada à minha altura e com queda aparatosa no verdejante jardim continuei ligeiramente cambaleante, na sonoridade que me acompanhava pelo molho de chaves a me seguir na adição de bolso. Muito escolhi junto à porta mas a correcta lá apareceu, entrando na fechadura e abrindo o portão até chegar à escuridão interior onde a lanterna iluminava tudo o que ver pretendia. Ouvi um grito longínquo e logo de seguida uivo de proximidade maior. Tropecei não sei bem onde e ao olhar em frente pareceu-me mirar vulto de capa longa, quase um vestido, assim interiorizei como imagem. Levantei-me e pensei de imediato ir em busca do pote e do seu ouro bem

guardado e de onde o chefe me preveniu localização exacta poder encontrar sem mais demoras. Trazia mapa do palacete e suas divisões mas com repentina de vento rajada, voou na rapidez que me surpreendeu, desaparecendo na escuridão. Ainda tentei focá-lo mas não tive sucesso. Alguém de correntes arrastando-se era o que eu percebia na chegada ouvindo e estremecendo. «Quer coisa alguma daqui?» foi pergunta dirigida a mim, desse modo a recebi como uma espada apontada ao meu pescoço. Não sentia a minha pele na segurança que o chefe me garantiu iria ser total durante a minha breve estada nesses sombrios aposentos. Aliás, reforçou sua convicção que o trabalho em facilidade evidente também eu iria concordar quando chegasse a minha vez, precisamente essa na vez de chefe, que curiosamente rejeitou ser ele a vir fazer empreitada simplificada ao máximo. Teria de ser eu, no entender dele, a receber a glorificação da retirada do pote mas o vulto pela frente minha uivava enquanto algo por trás de mim soprava o bastante. E o que dizer de um talvez adicional vulto aproximando-se martelando panela, dedução tal me atravessava a espinha? O palacete assombrado me sugeria abdicar o antes do quanto e cheio de medo voltei para trás correndo, parecendo que eles, os supostos fantasmas corriam no igual percurso atrás

de mim. Na pressa, deixei cair o molho das chaves pelo jardim e ainda por cima, o muro parecia mais alto do que antes. Claro, a escada apenas do outro lado estaria. Com surpresa, senti como que uma ajuda adicional na subida e no cimo do muro percebi que a escada havia desaparecido. Só me restou saltar e correr fugindo dos fantasmagóricos vultos na direcção do chefe, ele mesmo um pouco mais adiante, todo sorridente. «Vamos embora» disse ele. Não me perguntou onde traria eu o pote. Talvez deduzisse que estaria por baixo da roupa ou então que não o levava comigo e que a missão não havia sido o sucesso que ele vaticínio antes fizera. Talvez até previsão sua fosse agora correspondida no meu feito, ou melhor, pela negação do mesmo. Ou quiçá, me enviasse ele na busca do fracasso para não ser ele a passar por semelhante glória. Mas nada dito ou sugerido por ele, apenas eu na divagação própria de quem tudo lhe vinha à mente. O carro iniciou sua marcha e dele ouvi: «Deixa lá, melhores dias virão, menos sombrios e mais profícuos. Não te preocupes com as chaves pois arranjaremos outras. E lembra-te sempre que existe por aí imenso ouro à nossa espera!» Olhei o chefe e de seguida o pote que estava mesmo à minha frente e então, já não era sem tempo, mais tranquilo fiquei. «Isso que vês aí fui eu que o

subtraí enquanto davas o teu melhor. Foi noutro local do palacete de há pouco bem próximo.» A estupefacção começou a adornar-me de modo crescente, ainda mais quando o chefe acrescentou: «Estamos por isso ambos de parabéns!»

 

Luís Amorim
O pote

O chefe havia dito em altura distante que o pote estaria livre de companhias indesejáveis precisamente nestes momentos e durante mais alguns no veraneio que procurou paragens outras saindo do palacete vazio rumo à minha satisfação de poder ir em cobiça ao seu recheio. Poderia esperar dias, é bem certo, mas em situações destas já dizia ele, o chefe, convém actuar de pronto. E assim fiz, saltei o muro depois de recurso a escada acrescentada à minha altura e com queda aparatosa no verdejante jardim continuei ligeiramente cambaleante, na sonoridade que me acompanhava pelo molho de chaves a me seguir na adição de bolso. Muito escolhi junto à porta mas a correcta lá apareceu, entrando na fechadura e abrindo o portão até chegar à escuridão interior onde a lanterna iluminava tudo o que ver pretendia. Ouvi um grito longínquo e logo de seguida uivo de proximidade maior. Tropecei não sei bem onde e ao olhar em frente pareceu-me mirar vulto de capa longa, quase um vestido, assim interiorizei como imagem. Levantei-me e pensei de imediato ir em busca do pote e do seu ouro bem

guardado e de onde o chefe me preveniu localização exacta poder encontrar sem mais demoras. Trazia mapa do palacete e suas divisões mas com repentina de vento rajada, voou na rapidez que me surpreendeu, desaparecendo na escuridão. Ainda tentei focá-lo mas não tive sucesso. Alguém de correntes arrastando-se era o que eu percebia na chegada ouvindo e estremecendo. «Quer coisa alguma daqui?» foi pergunta dirigida a mim, desse modo a recebi como uma espada apontada ao meu pescoço. Não sentia a minha pele na segurança que o chefe me garantiu iria ser total durante a minha breve estada nesses sombrios aposentos. Aliás, reforçou sua convicção que o trabalho em facilidade evidente também eu iria concordar quando chegasse a minha vez, precisamente essa na vez de chefe, que curiosamente rejeitou ser ele a vir fazer empreitada simplificada ao máximo. Teria de ser eu, no entender dele, a receber a glorificação da retirada do pote mas o vulto pela frente minha uivava enquanto algo por trás de mim soprava o bastante. E o que dizer de um talvez adicional vulto aproximando-se martelando panela, dedução tal me atravessava a espinha? O palacete assombrado me sugeria abdicar o antes do quanto e cheio de medo voltei para trás correndo, parecendo que eles, os supostos fantasmas corriam no igual percurso atrás

de mim. Na pressa, deixei cair o molho das chaves pelo jardim e ainda por cima, o muro parecia mais alto do que antes. Claro, a escada apenas do outro lado estaria. Com surpresa, senti como que uma ajuda adicional na subida e no cimo do muro percebi que a escada havia desaparecido. Só me restou saltar e correr fugindo dos fantasmagóricos vultos na direcção do chefe, ele mesmo um pouco mais adiante, todo sorridente. «Vamos embora» disse ele. Não me perguntou onde traria eu o pote. Talvez deduzisse que estaria por baixo da roupa ou então que não o levava comigo e que a missão não havia sido o sucesso que ele vaticínio antes fizera. Talvez até previsão sua fosse agora correspondida no meu feito, ou melhor, pela negação do mesmo. Ou quiçá, me enviasse ele na busca do fracasso para não ser ele a passar por semelhante glória. Mas nada dito ou sugerido por ele, apenas eu na divagação própria de quem tudo lhe vinha à mente. O carro iniciou sua marcha e dele ouvi: «Deixa lá, melhores dias virão, menos sombrios e mais profícuos. Não te preocupes com as chaves pois arranjaremos outras. E lembra-te sempre que existe por aí imenso ouro à nossa espera!» Olhei o chefe e de seguida o pote que estava mesmo à minha frente e então, já não era sem tempo, mais tranquilo fiquei. «Isso que vês aí fui eu que o

subtraí enquanto davas o teu melhor. Foi noutro local do palacete de há pouco bem próximo.» A estupefacção começou a adornar-me de modo crescente, ainda mais quando o chefe acrescentou: «Estamos por isso ambos de parabéns!»