O diário de Halina - Maria da Paz Guerreiro
Maria da Paz Guerreiro
Maria da Paz Guerreiro ou Paz Guerreiro. Nascida no Ceará, Estado que teve em Rachel de Queiroz a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras em 1977.
Com vida conturbada, vieram períodos de depressão mas também o incentivo de um psiquiatra, notável ser humano, a escrever um livro. Começou a escrever em maio de 2016.
Crer que o nome já fala por si. Vve na corda bamba, entre a razão e a emoção, pendendo sempre para o lado da segunda opção. Freud não explica.
O que pulsa no cérebro sai nas pontas dos dedos... A escrita é a cura... Enfim...

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O diário de Halina

E a humana, sem distinguir os mistérios antigos, romanticamente acreditava que nos sonhos via a sua alma gêmea. E ela queria seu sangue virgem, para poder concretizar um laço, que seria indestrutível. A lâmina então cortou suave e superficialmente seu pulso, fazendo com que a toalha de mãos, também virgem e branca se tingisse de vermelho. Em seguida, ela pôs a toalha dentro do mesmo recipiente onde a vela ardia. O fogo queimaria tudo, feroz, superando a umidade do sangue fresco.

Sem desgrudar os olhos da luz da vela, sem dar as costas para o local da oferenda, Helena saiu. No outro dia, o ritual continuaria em sua casa. Era a noite perfeita. Sexta feira, treze de agosto, noite de lua cheia. O ritual deveria começar exatamente às 23:38 minutos, para que a última etapa fosse concluída exatamente a meia noite.

Para começar, Helena escrevera seu nome completo num papel branco e reabriu o ferimento de seu pulso esquerdo com o canivete. Gotas de seu sangue caíram sobre o papel, tingindo partes dele de vermelho.

Depois, cuidadosamente, para que sua irmã não percebesse nada, desligou as luzes e colocou a folha de papel em frente à porta de madeira. Depois, colocou uma vela acesa sob o papel e meticulosamente bateu na porta 22 vezes, sendo que a vigésima segunda batida ressoou em uníssono, com o velho relógio de parede, que badalou doze vezes, anunciando a meia noite.

Então Helena abriu a porta, apagou a vela e voltou a fechar a porta, dirigindo-se à seu quarto e deitando-se. Esperaria por ele. Ele prometera que naquela noite, seria seu, para sempre.

Ansiosa, levantou-se e acendeu a vela imediatamente. Ele deveria ver uma luz acesa, para saber qual era o seu quarto.

E ela ouviu passos, cada vez mais próximos, até que ele chegou. Ela sabia, ele caminhava suavemente, como em seus sonhos. No último deles, dissera que ficaria até as 3:33. E depois, se ela quisesse, o seguiria para sempre. E ficariam para sempre juntos.

Dez minutos se passaram, e apenas o tic tic do velho relógio quebrava o silêncio. Até que Helena ouviu algo mais, parecia uma respiração ofegante, próxima à porta de seu quarto, que ela deixara apenas encostada para facilitar a entrada de seu amado. Um sentimento desconhecido, revirou seu estômago, já vazio àquelas horas. Devia ser a ansiedade do primeiro e definitivo encontro. Aporta se entreabriu lentamente e o coração de Helena pulou no peito. Mas era apenas Rex, seu cachorrinho, que entrara no quarto para lhe fazer companhia. Ele parecia, no entanto, muito inquieto.

Meia noite e meia e o velho relógio badalou uma vez somente. Helena ouviu o barulho de gotas pingando e, incomodada com o som, levantou-se para apertar a torneira da pia do banheiro.

Estava com medo. Inquieta. Pela primeira vez, teve vontade de desistir do pacto, alimentado por tanto tempo. E trancou a porta. Voltou para a cama e deitou-se com a mão para fora do colchão, recebendo lambidas do seu cãozinho incessantemente, até que finalmente voltou a adormecer.

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Maria da Paz Guerreiro
O diário de Halina

E a humana, sem distinguir os mistérios antigos, romanticamente acreditava que nos sonhos via a sua alma gêmea. E ela queria seu sangue virgem, para poder concretizar um laço, que seria indestrutível. A lâmina então cortou suave e superficialmente seu pulso, fazendo com que a toalha de mãos, também virgem e branca se tingisse de vermelho. Em seguida, ela pôs a toalha dentro do mesmo recipiente onde a vela ardia. O fogo queimaria tudo, feroz, superando a umidade do sangue fresco.

Sem desgrudar os olhos da luz da vela, sem dar as costas para o local da oferenda, Helena saiu. No outro dia, o ritual continuaria em sua casa. Era a noite perfeita. Sexta feira, treze de agosto, noite de lua cheia. O ritual deveria começar exatamente às 23:38 minutos, para que a última etapa fosse concluída exatamente a meia noite.

Para começar, Helena escrevera seu nome completo num papel branco e reabriu o ferimento de seu pulso esquerdo com o canivete. Gotas de seu sangue caíram sobre o papel, tingindo partes dele de vermelho.

Depois, cuidadosamente, para que sua irmã não percebesse nada, desligou as luzes e colocou a folha de papel em frente à porta de madeira. Depois, colocou uma vela acesa sob o papel e meticulosamente bateu na porta 22 vezes, sendo que a vigésima segunda batida ressoou em uníssono, com o velho relógio de parede, que badalou doze vezes, anunciando a meia noite.

Então Helena abriu a porta, apagou a vela e voltou a fechar a porta, dirigindo-se à seu quarto e deitando-se. Esperaria por ele. Ele prometera que naquela noite, seria seu, para sempre.

Ansiosa, levantou-se e acendeu a vela imediatamente. Ele deveria ver uma luz acesa, para saber qual era o seu quarto.

E ela ouviu passos, cada vez mais próximos, até que ele chegou. Ela sabia, ele caminhava suavemente, como em seus sonhos. No último deles, dissera que ficaria até as 3:33. E depois, se ela quisesse, o seguiria para sempre. E ficariam para sempre juntos.

Dez minutos se passaram, e apenas o tic tic do velho relógio quebrava o silêncio. Até que Helena ouviu algo mais, parecia uma respiração ofegante, próxima à porta de seu quarto, que ela deixara apenas encostada para facilitar a entrada de seu amado. Um sentimento desconhecido, revirou seu estômago, já vazio àquelas horas. Devia ser a ansiedade do primeiro e definitivo encontro. Aporta se entreabriu lentamente e o coração de Helena pulou no peito. Mas era apenas Rex, seu cachorrinho, que entrara no quarto para lhe fazer companhia. Ele parecia, no entanto, muito inquieto.

Meia noite e meia e o velho relógio badalou uma vez somente. Helena ouviu o barulho de gotas pingando e, incomodada com o som, levantou-se para apertar a torneira da pia do banheiro.

Estava com medo. Inquieta. Pela primeira vez, teve vontade de desistir do pacto, alimentado por tanto tempo. E trancou a porta. Voltou para a cama e deitou-se com a mão para fora do colchão, recebendo lambidas do seu cãozinho incessantemente, até que finalmente voltou a adormecer.

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