O diário de Halina - Maria da Paz Guerreiro
Maria da Paz Guerreiro
Maria da Paz Guerreiro ou Paz Guerreiro. Nascida no Ceará, Estado que teve em Rachel de Queiroz a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras em 1977.
Com vida conturbada, vieram períodos de depressão mas também o incentivo de um psiquiatra, notável ser humano, a escrever um livro. Começou a escrever em maio de 2016.
Crer que o nome já fala por si. Vve na corda bamba, entre a razão e a emoção, pendendo sempre para o lado da segunda opção. Freud não explica.
O que pulsa no cérebro sai nas pontas dos dedos... A escrita é a cura... Enfim...

E-mail: mariadapazguerreiro@yahoo.com.br
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Wattpad: @Pazguerreiro
Twitter: @mana-paz





O diário de Halina

E aquela espiral, em redemoinhos, rasgou suas entranhas, atravessando órgãos vitais, sufocando-a com sangue, que agora, em filetes, devido já a escassez, brotava pela boca, nariz e olhos de Helena. E antes que a paz e o silêncio da morte chegasse, a criatura, se recompondo, num sussurro gutural, disse as últimas palavras ouvidas por ela:

– Vá dormir!

E Helena já não viu quando ele saiu do quarto. O velho relógio badalara uma vez, há três minutos. Eram 3:33.

Agora, terminada a leitura, pareço acordar de um sonho ruim. O relato parecera acabar ali, com a morte trágica de Helena. Mas como Halina poderia saber de tudo e escrever tão friamente e com tanta riqueza de detalhes? Vejo então que há marcas de letras na página que terminei de ler. Devem ser letras no verso! A curiosidade que rege meu instinto, me faz virar a página. Aterrada, leio a resposta, escrita em letras maiúsculas:

SE VOCÊ ESTÁ A LER ESTA PÁGINA, SUA CURIOSIDADE LHE TROUXE LONGE DEMAIS!

SIM! HELENA ERA MINHA ALMA GÊMEA, DESDE QUE O COSMOS NOS CRIOU, ANTES QUE HOUVESSE CARNE. E ESTÁ COMIGO ATÉ HOJE.

COMO HALINA SABIA DE TANTOS DETALHES, É A SUA PRÓXIMA PERGUNTA…

A RESPOSTA: HALINA PENSOU QUE SUA IRMÃ BATERA NA PORTA DO SEU QUARTO… E ABRIU. MAS ERA EU QUE ESTAVA ALI E A MATEI. O CORPO FOI DEVORADO. POR ISSO, NUNCA FOI ENCONTRADO. HELENA FICOU PARA SEMPRE COMIGO E TODOS PENSARAM NUMA PROVÁVEL VIAGEM DAS IRMÃS. A MIM, SÓ INTERESSAVA A ALMA DE HELENA.

A VERDADE É QUE EU NÃO PRECISO DE PORTAS PARA ENTRAR. EU ESTAREI PARA SEMPRE AQUI E ESCREVI O DIÁRIO DE HALINA, QUE SEMPRE TRARÁ CURIOSOS QUE MATARÃO A NOSSA FOME.

Ouço uma batida seca na porta. Somente agora percebo que estou sozinha. Todos já se foram. Os móveis estão em seus devidos lugares. Mas…Por Deus…estou só! Minhas mãos suam. Todo o meu corpo treme e o cérebro tenta memorizar as rezas que aprendi na infância. É inútil! Não sei mais rezar!

O arrepio do meu lado esquerdo se intensifica. O velho caderno cai das minhas mãos. Abro a boca, num último pedido de socorro. Ninguém me ouvirá.

Do canto mais escuro da sala, sai Helena e um homem com o rosto branco e caminham em minha direção…

 

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Maria da Paz Guerreiro
O diário de Halina

E aquela espiral, em redemoinhos, rasgou suas entranhas, atravessando órgãos vitais, sufocando-a com sangue, que agora, em filetes, devido já a escassez, brotava pela boca, nariz e olhos de Helena. E antes que a paz e o silêncio da morte chegasse, a criatura, se recompondo, num sussurro gutural, disse as últimas palavras ouvidas por ela:

– Vá dormir!

E Helena já não viu quando ele saiu do quarto. O velho relógio badalara uma vez, há três minutos. Eram 3:33.

Agora, terminada a leitura, pareço acordar de um sonho ruim. O relato parecera acabar ali, com a morte trágica de Helena. Mas como Halina poderia saber de tudo e escrever tão friamente e com tanta riqueza de detalhes? Vejo então que há marcas de letras na página que terminei de ler. Devem ser letras no verso! A curiosidade que rege meu instinto, me faz virar a página. Aterrada, leio a resposta, escrita em letras maiúsculas:

SE VOCÊ ESTÁ A LER ESTA PÁGINA, SUA CURIOSIDADE LHE TROUXE LONGE DEMAIS!

SIM! HELENA ERA MINHA ALMA GÊMEA, DESDE QUE O COSMOS NOS CRIOU, ANTES QUE HOUVESSE CARNE. E ESTÁ COMIGO ATÉ HOJE.

COMO HALINA SABIA DE TANTOS DETALHES, É A SUA PRÓXIMA PERGUNTA…

A RESPOSTA: HALINA PENSOU QUE SUA IRMÃ BATERA NA PORTA DO SEU QUARTO… E ABRIU. MAS ERA EU QUE ESTAVA ALI E A MATEI. O CORPO FOI DEVORADO. POR ISSO, NUNCA FOI ENCONTRADO. HELENA FICOU PARA SEMPRE COMIGO E TODOS PENSARAM NUMA PROVÁVEL VIAGEM DAS IRMÃS. A MIM, SÓ INTERESSAVA A ALMA DE HELENA.

A VERDADE É QUE EU NÃO PRECISO DE PORTAS PARA ENTRAR. EU ESTAREI PARA SEMPRE AQUI E ESCREVI O DIÁRIO DE HALINA, QUE SEMPRE TRARÁ CURIOSOS QUE MATARÃO A NOSSA FOME.

Ouço uma batida seca na porta. Somente agora percebo que estou sozinha. Todos já se foram. Os móveis estão em seus devidos lugares. Mas…Por Deus…estou só! Minhas mãos suam. Todo o meu corpo treme e o cérebro tenta memorizar as rezas que aprendi na infância. É inútil! Não sei mais rezar!

O arrepio do meu lado esquerdo se intensifica. O velho caderno cai das minhas mãos. Abro a boca, num último pedido de socorro. Ninguém me ouvirá.

Do canto mais escuro da sala, sai Helena e um homem com o rosto branco e caminham em minha direção…

 

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