Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Maycon Guedes
Maycon Guedes, 32 anos, é de São Paulo e escreve contos macabros. Está em processo de escrita de sua primeira antologia chamada '13 Contos Fúnebres'. Apaixonado por cinema, música, vida noturna e artes em geral. Aspirante a cineasta.









Dance Comigo Até o Fim

   A rua que acompanha o extenso muro do cemitério era o único caminho para chegar em casa depois de um longo dia de trabalho. E foi nessa rua onde tudo começou, enquanto eu caminhava e olhava para o interior do cemitério e via as figuras disformes que se escondiam atrás dos túmulos, outras se escondiam atrás das árvores secas que enfrentavam o inverno. Por três noites foi assim, espectros atormentados e zombeteiros flertavam comigo durante minha caminhada noturna. Certo dia, decidi parar para observá-los – grande erro, talvez! Me sentei em um velho banco de madeira que ficava do outro lado da rua, de frente ao muro do cemitério; naquele horário, perto das onze da noite, ninguém transitava por aquela rua de terra úmida, e eu sozinho, naquela noite fria, tinha como companhia – além daqueles espíritos – apenas o som do vento e dos jarros de flores se quebrando ao cair dos túmulos. Eu contemplava as sinistras sombras que vagavam pelo cemitério, algumas se atreviam a se movimentar até o muro, outras mais ousadas vinham de encontro a mim, parando no meio da rua, evitando se aproximar do banco onde eu estava sentado; era como se aquelas figuras tentassem, de alguma forma, se conectar comigo. Nos dois primeiros dias que as vi, acelerei o passo e evitava olhar para elas, mas naquela noite eu não senti medo algum.

   Meus pensamentos suicidas evoluíram naquele momento, para mim, aquela era a hora certa de eu acabar com a minha vida e terminar de vez com meu sofrimento; eu queria me juntar àquelas figuras, me despedir do mundo e se tornar uma delas. De repente, graças ao forte brilho da lua, enxerguei algo ao lado de um jazigo me observando e, assim que me levantei para ter certeza do que eu estava vendo, a coisa retirou-se, flutuando levemente para de encontro com a escuridão das sepulturas mais ao fundo. Por um instante, eu tive a impressão de que aquilo se parecia com minha falecida amada, morta há alguns meses depois de lutar contra uma terrível doença. Nos amávamos muito, éramos os melhores dançarinos da região, e foi através das aulas de dança que nos conhecemos; devemos todo o nosso amor à dança. Eu não era mais o mesmo depois que ela se foi; eu sentia muito a sua falta naqueles meus dias sombrios; eu faria de tudo para tê-la de volta, tudo mesmo! Lembrei da nossa promessa, de ficarmos juntos e dançar “até que a morte nos separe”; infelizmente, a morte veio e a dança acabou. Eu não tinha nada a perder naquela noite, minha vida já não fazia muito sentido mesmo, e então, um louco pensamento se apoderou de minha mente, fazendo-me ter mais coragem, uma coragem tão grande a ponto de querer visitar meu finado amor que descansava naquele cemitério. Talvez, a aparição daqueles espectros tivesse um propósito, me convidar para entrar no cemitério e reencontrar minha amada. Decidi invadir aquele local macabro.

   Eu não tinha certeza se o coveiro Tavares – aquele velho beberrão – estaria vigiando a entrada do cemitério, por isso, decidi pular o muro o mais longe possível da entrada para evitar de ser pego, já que àquela hora da noite era proibida a permanência no local. Pulei o muro e em questão de segundos eu já caminhava entre os falecidos. Enquanto eu andava pelos tristes corredores, procurando a cova de meu amor, as sinistras figuras me acompanhavam; algumas delas, fugazmente atravessavam meu caminho, outras, pareciam estar presas em grandes jazigos com grades, tentando se libertarem em desespero. Eu sentia a terra das covas sendo jogadas em meus pés; alguns jarros continuavam a cair no chão, mas eu já estava tão acostumado com os barulhos que nem me assustava mais; eu só queria encontrar uma pá, e não seria difícil, pois o coveiro daquele lugar sempre deixa algumas espalhadas pelo cemitério, evitando de voltar ao depósito caso esqueça de pegá-las. Não demorou muito e eu já estava empunhando uma pá, me aproximando da cova que armazenava o lindo cadáver que eu iria exumar.

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Maycon Guedes
Dance Comigo Até o Fim

   A rua que acompanha o extenso muro do cemitério era o único caminho para chegar em casa depois de um longo dia de trabalho. E foi nessa rua onde tudo começou, enquanto eu caminhava e olhava para o interior do cemitério e via as figuras disformes que se escondiam atrás dos túmulos, outras se escondiam atrás das árvores secas que enfrentavam o inverno. Por três noites foi assim, espectros atormentados e zombeteiros flertavam comigo durante minha caminhada noturna. Certo dia, decidi parar para observá-los – grande erro, talvez! Me sentei em um velho banco de madeira que ficava do outro lado da rua, de frente ao muro do cemitério; naquele horário, perto das onze da noite, ninguém transitava por aquela rua de terra úmida, e eu sozinho, naquela noite fria, tinha como companhia – além daqueles espíritos – apenas o som do vento e dos jarros de flores se quebrando ao cair dos túmulos. Eu contemplava as sinistras sombras que vagavam pelo cemitério, algumas se atreviam a se movimentar até o muro, outras mais ousadas vinham de encontro a mim, parando no meio da rua, evitando se aproximar do banco onde eu estava sentado; era como se aquelas figuras tentassem, de alguma forma, se conectar comigo. Nos dois primeiros dias que as vi, acelerei o passo e evitava olhar para elas, mas naquela noite eu não senti medo algum.

   Meus pensamentos suicidas evoluíram naquele momento, para mim, aquela era a hora certa de eu acabar com a minha vida e terminar de vez com meu sofrimento; eu queria me juntar àquelas figuras, me despedir do mundo e se tornar uma delas. De repente, graças ao forte brilho da lua, enxerguei algo ao lado de um jazigo me observando e, assim que me levantei para ter certeza do que eu estava vendo, a coisa retirou-se, flutuando levemente para de encontro com a escuridão das sepulturas mais ao fundo. Por um instante, eu tive a impressão de que aquilo se parecia com minha falecida amada, morta há alguns meses depois de lutar contra uma terrível doença. Nos amávamos muito, éramos os melhores dançarinos da região, e foi através das aulas de dança que nos conhecemos; devemos todo o nosso amor à dança. Eu não era mais o mesmo depois que ela se foi; eu sentia muito a sua falta naqueles meus dias sombrios; eu faria de tudo para tê-la de volta, tudo mesmo! Lembrei da nossa promessa, de ficarmos juntos e dançar “até que a morte nos separe”; infelizmente, a morte veio e a dança acabou. Eu não tinha nada a perder naquela noite, minha vida já não fazia muito sentido mesmo, e então, um louco pensamento se apoderou de minha mente, fazendo-me ter mais coragem, uma coragem tão grande a ponto de querer visitar meu finado amor que descansava naquele cemitério. Talvez, a aparição daqueles espectros tivesse um propósito, me convidar para entrar no cemitério e reencontrar minha amada. Decidi invadir aquele local macabro.

   Eu não tinha certeza se o coveiro Tavares – aquele velho beberrão – estaria vigiando a entrada do cemitério, por isso, decidi pular o muro o mais longe possível da entrada para evitar de ser pego, já que àquela hora da noite era proibida a permanência no local. Pulei o muro e em questão de segundos eu já caminhava entre os falecidos. Enquanto eu andava pelos tristes corredores, procurando a cova de meu amor, as sinistras figuras me acompanhavam; algumas delas, fugazmente atravessavam meu caminho, outras, pareciam estar presas em grandes jazigos com grades, tentando se libertarem em desespero. Eu sentia a terra das covas sendo jogadas em meus pés; alguns jarros continuavam a cair no chão, mas eu já estava tão acostumado com os barulhos que nem me assustava mais; eu só queria encontrar uma pá, e não seria difícil, pois o coveiro daquele lugar sempre deixa algumas espalhadas pelo cemitério, evitando de voltar ao depósito caso esqueça de pegá-las. Não demorou muito e eu já estava empunhando uma pá, me aproximando da cova que armazenava o lindo cadáver que eu iria exumar.

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