Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Maycon Guedes
Maycon Guedes, 32 anos, é de São Paulo e escreve contos macabros. Está em processo de escrita de sua primeira antologia chamada '13 Contos Fúnebres'. Apaixonado por cinema, música, vida noturna e artes em geral. Aspirante a cineasta.









Te Aguardo em Tua Sepultura

Não sei quanto tempo mais eu tenho, mas preciso registrar isso. Ela tenta me impedir de várias formas; sussurrando palavras aleatórias em meu ouvido, e assim, me atrapalha enquanto escrevo; Ela pode, sutilmente, empurrar minha mão, fazendo da minha escrita um garrancho; Ela pode, também, apagar a vela que ilumina as folhas em que eu escrevo e, mesmo que eu volte a acender, alguns segundos depois, Ela vem e apaga novamente. Não posso morrer sem antes deixar tudo registrado, e de alguma forma, fazer com que minha irmã leia o que escrevi, os horrores que passei, e alerta-la do perigo que a espera. Espero poder concluir esta carta, tentarei ser o mais breve possível. Acredito não ter muito tempo.
Ontem eu acordei com a luz do Sol ardendo em meu rosto; um jeito horrível de despertar, era como se o Sol viesse ao meu encontro, dentro do meu quarto, pronto para me devorar. Minha janela estava sem cortina, e às duas da tarde, o horário em que acordei, o Sol ardia e minha cabeça doía muito; uma ressaca horrível! Nem lembro como cheguei em casa, mas lembro das dores que me assolam há alguns dias. Disse para mim mesmo que nunca mais beberia assim novamente – disse isso tantas outras vezes. A dor em meu tornozelo direito aumentara; foi preciso massagear e fazer alguns movimentos com o pé – ainda na cama – para depois de alguns minutos, eu finalmente conseguir me levantar. De onde vem essa dor? Perto das oito da noite a dor no tornozelo diminuíra bastante: um alívio! Mas, eu sentia uma sensação estranha, e não era culpa da ressaca; era uma sensação fúnebre, melancólica, gélida; até mesmo em meu olfato, pois o cheiro das coisas, que eu estava acostumado a sentir, parecia ter um odor diferente. O aroma do coentro que eu tanto adoro, por exemplo, invadia minhas narinas com um leve cheiro de vela de cemitério. Mais tarde, me preparei para dormir, e a partir daí, tudo piorou! Foi uma madrugada horrível, mas não tão horrível quanto o que eu encontrei ao acordar.
Esta noite tive um pesadelo desesperador. Sonhei que um grande rato negro, do tamanho de uma panela de pressão, com sua cabeça duas vezes maior, estava em minha cama enquanto eu dormia, próximo aos meus pés, e ele me fixava com seu olhar macabro. Seus olhos pareciam duas pequenas bolas de fogo, que iluminavam sua face demoníaca na escuridão, deixando aparente seus grandes dentes sedentos por carne humana. Impulsivamente ele abocanhou minha perna e começou a roer; eu não podia me mover, enquanto ele cravava os dentes em minha carne, ligeiro – imagine uma enxada cavando na terra dura – era essa imagem que eu via, seus dentes como enxada, arrancando pedaços de mim, cavando sem parar. O sangue escorria no lençol, e eu sentia seus dentes potentes batendo em meu osso, fortemente, e os olhos infernais da criatura pareciam brilhar cada vez mais; um brilho de prazer; e por um instante, eu juro ter visto aquele rato maldito sorrir, e sem desviar os olhos de mim, cravava os dentes em meu osso. A dor foi tanta que me fez acordar.

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Maycon Guedes
Te Aguardo em Tua Sepultura

Não sei quanto tempo mais eu tenho, mas preciso registrar isso. Ela tenta me impedir de várias formas; sussurrando palavras aleatórias em meu ouvido, e assim, me atrapalha enquanto escrevo; Ela pode, sutilmente, empurrar minha mão, fazendo da minha escrita um garrancho; Ela pode, também, apagar a vela que ilumina as folhas em que eu escrevo e, mesmo que eu volte a acender, alguns segundos depois, Ela vem e apaga novamente. Não posso morrer sem antes deixar tudo registrado, e de alguma forma, fazer com que minha irmã leia o que escrevi, os horrores que passei, e alerta-la do perigo que a espera. Espero poder concluir esta carta, tentarei ser o mais breve possível. Acredito não ter muito tempo.
Ontem eu acordei com a luz do Sol ardendo em meu rosto; um jeito horrível de despertar, era como se o Sol viesse ao meu encontro, dentro do meu quarto, pronto para me devorar. Minha janela estava sem cortina, e às duas da tarde, o horário em que acordei, o Sol ardia e minha cabeça doía muito; uma ressaca horrível! Nem lembro como cheguei em casa, mas lembro das dores que me assolam há alguns dias. Disse para mim mesmo que nunca mais beberia assim novamente – disse isso tantas outras vezes. A dor em meu tornozelo direito aumentara; foi preciso massagear e fazer alguns movimentos com o pé – ainda na cama – para depois de alguns minutos, eu finalmente conseguir me levantar. De onde vem essa dor? Perto das oito da noite a dor no tornozelo diminuíra bastante: um alívio! Mas, eu sentia uma sensação estranha, e não era culpa da ressaca; era uma sensação fúnebre, melancólica, gélida; até mesmo em meu olfato, pois o cheiro das coisas, que eu estava acostumado a sentir, parecia ter um odor diferente. O aroma do coentro que eu tanto adoro, por exemplo, invadia minhas narinas com um leve cheiro de vela de cemitério. Mais tarde, me preparei para dormir, e a partir daí, tudo piorou! Foi uma madrugada horrível, mas não tão horrível quanto o que eu encontrei ao acordar.
Esta noite tive um pesadelo desesperador. Sonhei que um grande rato negro, do tamanho de uma panela de pressão, com sua cabeça duas vezes maior, estava em minha cama enquanto eu dormia, próximo aos meus pés, e ele me fixava com seu olhar macabro. Seus olhos pareciam duas pequenas bolas de fogo, que iluminavam sua face demoníaca na escuridão, deixando aparente seus grandes dentes sedentos por carne humana. Impulsivamente ele abocanhou minha perna e começou a roer; eu não podia me mover, enquanto ele cravava os dentes em minha carne, ligeiro – imagine uma enxada cavando na terra dura – era essa imagem que eu via, seus dentes como enxada, arrancando pedaços de mim, cavando sem parar. O sangue escorria no lençol, e eu sentia seus dentes potentes batendo em meu osso, fortemente, e os olhos infernais da criatura pareciam brilhar cada vez mais; um brilho de prazer; e por um instante, eu juro ter visto aquele rato maldito sorrir, e sem desviar os olhos de mim, cravava os dentes em meu osso. A dor foi tanta que me fez acordar.

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