Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Murilo Salini
Da membrana de podridão; ácida e pegajosa, que meu encéfalo envolve; brotam minhas palavras.
Mas como espinhos, não flores.
Só há nesse universo coisa única a desabrochar... O caos.
A semente cancerosa se aprova e se propaga, ignorando o fato de que o exame que acusa o seu fardo se dá diante do espelho.
Ponha os olhos nos meus nódulos malditos; nos meus filhos, “crianças subversivas”; no meu rastro fumegante absolvido pela eternidade; e logo se dará a incisão.
Com um estilhaço de espelho
Hei de sua mente explorar
E como num sopro de estrelas em morte
Amiga estranheza irei semear






Imber Sanguis

A lua cheia cumpria o papel que a lanterna, agora com pilhas descarregadas, não pode. Adentrei as gramíneas temendo as formas de vida desconhecidas que por ali potencialmente transitavam. Eu não queria acabar rastejando com uma perna amputada no meio da canela por quelíceras de um aracnídeo de 30kg.

Passos firmes.

O medo pairava no ar.

“A paranoia captada pelos nossos sentidos reflete a aceitação da nossa insignificância”

As samambaias acariciavam meus braços e minha nuca, enquanto eu convertia pensamentos de ódio e violência hipotéticos em frigidez, para que meus nervos não sentissem tanto os efeitos dos sofrimentos por antecipação.

Resolvi optar por uma linha reta como alternativa de antecipar minha saída daquele lugar. A medida que me distanciava de meu carro, estalos húmidos provenientes da direção a qual seguia passavam a apresentar-se de forma mais forte e nítida.
Desacelerei meus passos e passei a caminhar leve e sorrateiramente até perceber que, a menos de dez metros à frente havia uma clareira razoável na floresta de samambaias, e o solo que até então mostrava-se firme, tornara-se lama escorregadia.
Na clareira havia um buraco com pelo menos 5m de diâmetro, uma toca repugnante de lama, asco e carnificina. Lesmas gigantes devoravam cadáveres em decomposição. A expressão de pavor na cabeça de um garotinho deixada de lado pelos moluscos monstruosos, ainda adorna minha mente nos momentos de pré-existência.

Risos! Gritos de pavor! Gemidos maliciosos! Choros!

Um coro infernal seguia o ritmo das batidas aceleradas de meu coração.

Contornei aquela ferida de Gaia e continuei meu caminho enquanto os sons aumentavam. Os 20 minutos seguintes consistiram em uma caminhada árdua por um caminho de traumas irreversíveis e mordidas despretensiosas nos frutos do meu pomar de delírios.

Um deslize na linha do real e da alucinação instigou-me a cessar o desconforto. Minha velha lâmina com cabo de trapo e fita branca, guiada pelas minhas mãos, perfurou meus tímpanos gotejando o licor de alma na boca afiada da Esperança. Não houve dor, eu não podia mais escutar meus passos, minha respiração nem o som das folhas das samambaias, apenas o agora onipresente coro infernal.

Tropecei nas raízes no momento em que sai daquele mato maldito. Deparei-me com um enorme galpão iluminado, pelo que julguei serem fogueiras ou tochas devido a constante variação de luminosidade propagada através das duas janelas frontais, ao lado da enorme porta de madeira com escritos em sangue.

Meus pensamentos fundiam-se aos barulhos incessantes.

“O ponto de escambo! O ponto de escambo! O ponto de escambo! ”

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Murilo Salini
Imber Sanguis

A lua cheia cumpria o papel que a lanterna, agora com pilhas descarregadas, não pode. Adentrei as gramíneas temendo as formas de vida desconhecidas que por ali potencialmente transitavam. Eu não queria acabar rastejando com uma perna amputada no meio da canela por quelíceras de um aracnídeo de 30kg.

Passos firmes.

O medo pairava no ar.

“A paranoia captada pelos nossos sentidos reflete a aceitação da nossa insignificância”

As samambaias acariciavam meus braços e minha nuca, enquanto eu convertia pensamentos de ódio e violência hipotéticos em frigidez, para que meus nervos não sentissem tanto os efeitos dos sofrimentos por antecipação.

Resolvi optar por uma linha reta como alternativa de antecipar minha saída daquele lugar. A medida que me distanciava de meu carro, estalos húmidos provenientes da direção a qual seguia passavam a apresentar-se de forma mais forte e nítida.
Desacelerei meus passos e passei a caminhar leve e sorrateiramente até perceber que, a menos de dez metros à frente havia uma clareira razoável na floresta de samambaias, e o solo que até então mostrava-se firme, tornara-se lama escorregadia.
Na clareira havia um buraco com pelo menos 5m de diâmetro, uma toca repugnante de lama, asco e carnificina. Lesmas gigantes devoravam cadáveres em decomposição. A expressão de pavor na cabeça de um garotinho deixada de lado pelos moluscos monstruosos, ainda adorna minha mente nos momentos de pré-existência.

Risos! Gritos de pavor! Gemidos maliciosos! Choros!

Um coro infernal seguia o ritmo das batidas aceleradas de meu coração.

Contornei aquela ferida de Gaia e continuei meu caminho enquanto os sons aumentavam. Os 20 minutos seguintes consistiram em uma caminhada árdua por um caminho de traumas irreversíveis e mordidas despretensiosas nos frutos do meu pomar de delírios.

Um deslize na linha do real e da alucinação instigou-me a cessar o desconforto. Minha velha lâmina com cabo de trapo e fita branca, guiada pelas minhas mãos, perfurou meus tímpanos gotejando o licor de alma na boca afiada da Esperança. Não houve dor, eu não podia mais escutar meus passos, minha respiração nem o som das folhas das samambaias, apenas o agora onipresente coro infernal.

Tropecei nas raízes no momento em que sai daquele mato maldito. Deparei-me com um enorme galpão iluminado, pelo que julguei serem fogueiras ou tochas devido a constante variação de luminosidade propagada através das duas janelas frontais, ao lado da enorme porta de madeira com escritos em sangue.

Meus pensamentos fundiam-se aos barulhos incessantes.

“O ponto de escambo! O ponto de escambo! O ponto de escambo! ”

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