Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Murilo Salini
Da membrana de podridão; ácida e pegajosa, que meu encéfalo envolve; brotam minhas palavras.
Mas como espinhos, não flores.
Só há nesse universo coisa única a desabrochar... O caos.
A semente cancerosa se aprova e se propaga, ignorando o fato de que o exame que acusa o seu fardo se dá diante do espelho.
Ponha os olhos nos meus nódulos malditos; nos meus filhos, “crianças subversivas”; no meu rastro fumegante absolvido pela eternidade; e logo se dará a incisão.
Com um estilhaço de espelho
Hei de sua mente explorar
E como num sopro de estrelas em morte
Amiga estranheza irei semear






Imber Sanguis

Creio que assisti o ato por pelo menos meia hora, com diversas variações nos atuantes da cena principal. Levantei e me esgueirei pelos fenos com o objetivo de descer sorrateiramente as escadas. No quinto degrau de cima para baixo, um grito agudo muito mais forte dos demais causou-me um microestado de pânico e eu despenquei escada abaixo.

Quando levantei esfregando a mão direita no ferimento aberto em minha cabeça, percebi que o coro infernal cessara. Olhei para a multidão e de pronto passei a transpirar frio.

Todos me olhavam.

Olhares odiosos.

Olhares indiferentes.

O olhar de um indivíduo complacente as tendências e as normas conservadoras diante de um indivíduo que anseia pelo bom senso e liberdade.

Caminhei rapidamente até a porta enquanto os corpos se viravam acompanhando meus passos. Virei-me novamente.

“Perdão” eu pensei ou falei, não me recordo.

“PROFANAS-TE O MEU ÂMBITO DE PAZ! RECUSAS-TE MINHA OFERTA DE SERVIDÃO! SOFRERÁS! ”

É verdade que eu estava surdo. Eu mesmo havia perfurado meus tímpanos cerca de uma hora atrás. Mas tais palavras, emanadas pelo que pareciam mil gargantas diabólicas, foram captadas por minha mente como antes o coro do ritual fora.

Eu corri! Não tive tempo de temer as criaturas da noite nas samambaias! Nem ao menos vi resquícios da clareira onde as lesmas gigantes se saciavam. Tropeçava, caía, mancava, chorava, corria, tropeçava, caía, mancava, gargalhava e corria.

Quando cheguei nas gramíneas amareladas eles já estavam lá. O velho Tempra em pedaços, e os servos da criatura em uma meia lua de onde eu não pude escapar.

Ajoelhado diante de minha ruína. Amarrado e encaminhado até os campos de crucificação. Açoitado, esfaqueado e apedrejado, sob a luz da lua escarlate, sob a chuva de sangue sob os trovões gargalhantes.

Despertei com os primeiros raios de sol na cara. Do meu lado direito um garotinho sendo devorado por vermes e moscas que já flertavam com meu futuro cadáver. Do meu lado esquerdo uma cruz ainda vaga, esperando pela companhia de algum miserável.

Cabia a mim apenas observar o horizonte e o céu, até que a desidratação ou os abutres gigantes pusessem fim ao meu calvário.
“Aquela coisa maldita! Eu teria ido embora, convivido com a minha surdez e meus traumas… fui crucificado a mando de um maldito fungo mutante. Um maldito cogumelo inteligente que convencera seres humanos desesperados de que era um demônio… tá brincando. ”

Para minha surpresa, cerca de duas horas depois que o sol apareceu, raios luminosos brotavam de trás de um morro no lado esquerdo de minha visão.

“Que porra é essa!?”

Uma segunda estrela nascia estonteante. E eu chorava diante daquela tragédia.

Naquela região, haviam dois sóis. E esta alma miserável aqui, pegou a referência do sol errado.

 

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Murilo Salini
Imber Sanguis

Creio que assisti o ato por pelo menos meia hora, com diversas variações nos atuantes da cena principal. Levantei e me esgueirei pelos fenos com o objetivo de descer sorrateiramente as escadas. No quinto degrau de cima para baixo, um grito agudo muito mais forte dos demais causou-me um microestado de pânico e eu despenquei escada abaixo.

Quando levantei esfregando a mão direita no ferimento aberto em minha cabeça, percebi que o coro infernal cessara. Olhei para a multidão e de pronto passei a transpirar frio.

Todos me olhavam.

Olhares odiosos.

Olhares indiferentes.

O olhar de um indivíduo complacente as tendências e as normas conservadoras diante de um indivíduo que anseia pelo bom senso e liberdade.

Caminhei rapidamente até a porta enquanto os corpos se viravam acompanhando meus passos. Virei-me novamente.

“Perdão” eu pensei ou falei, não me recordo.

“PROFANAS-TE O MEU ÂMBITO DE PAZ! RECUSAS-TE MINHA OFERTA DE SERVIDÃO! SOFRERÁS! ”

É verdade que eu estava surdo. Eu mesmo havia perfurado meus tímpanos cerca de uma hora atrás. Mas tais palavras, emanadas pelo que pareciam mil gargantas diabólicas, foram captadas por minha mente como antes o coro do ritual fora.

Eu corri! Não tive tempo de temer as criaturas da noite nas samambaias! Nem ao menos vi resquícios da clareira onde as lesmas gigantes se saciavam. Tropeçava, caía, mancava, chorava, corria, tropeçava, caía, mancava, gargalhava e corria.

Quando cheguei nas gramíneas amareladas eles já estavam lá. O velho Tempra em pedaços, e os servos da criatura em uma meia lua de onde eu não pude escapar.

Ajoelhado diante de minha ruína. Amarrado e encaminhado até os campos de crucificação. Açoitado, esfaqueado e apedrejado, sob a luz da lua escarlate, sob a chuva de sangue sob os trovões gargalhantes.

Despertei com os primeiros raios de sol na cara. Do meu lado direito um garotinho sendo devorado por vermes e moscas que já flertavam com meu futuro cadáver. Do meu lado esquerdo uma cruz ainda vaga, esperando pela companhia de algum miserável.

Cabia a mim apenas observar o horizonte e o céu, até que a desidratação ou os abutres gigantes pusessem fim ao meu calvário.
“Aquela coisa maldita! Eu teria ido embora, convivido com a minha surdez e meus traumas… fui crucificado a mando de um maldito fungo mutante. Um maldito cogumelo inteligente que convencera seres humanos desesperados de que era um demônio… tá brincando. ”

Para minha surpresa, cerca de duas horas depois que o sol apareceu, raios luminosos brotavam de trás de um morro no lado esquerdo de minha visão.

“Que porra é essa!?”

Uma segunda estrela nascia estonteante. E eu chorava diante daquela tragédia.

Naquela região, haviam dois sóis. E esta alma miserável aqui, pegou a referência do sol errado.

 

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