Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Murilo Salini
Da membrana de podridão; ácida e pegajosa, que meu encéfalo envolve; brotam minhas palavras.
Mas como espinhos, não flores.
Só há nesse universo coisa única a desabrochar... O caos.
A semente cancerosa se aprova e se propaga, ignorando o fato de que o exame que acusa o seu fardo se dá diante do espelho.
Ponha os olhos nos meus nódulos malditos; nos meus filhos, “crianças subversivas”; no meu rastro fumegante absolvido pela eternidade; e logo se dará a incisão.
Com um estilhaço de espelho
Hei de sua mente explorar
E como num sopro de estrelas em morte
Amiga estranheza irei semear






Noite qualquer em Lugar qualquer

A figura pulou em meu peito, gritando algo que não pude compreender, e cravando o crucifixo de cabeça para baixo em meu peito. Como se os demônios já não me quisessem ao seu lado.

No bar, volto ao meu corpo com um imbecil apagando seu cigarro nas costas de minha mão. Jogo a garrafa de cerveja para cima fazendo-a girar, agarro o seu bico no ar, bato a base na superfície do balcão gerando pontas afiadas, golpeio o rosto do verme duas vezes na mandíbula e uma vez nas vistas. A lâmina dele passou rápida e próxima o suficiente para fazer-me sangrar na barriga.

Olho para o desfigurado, desmaiado em seu sangue. Nobur fora um bom amigo, mas às vezes perdia a noção dos atos.

Corro para fora, atravesso o gramado, pulo o muro das dependências do bar antes que me notem o suficiente para me entregarem. Bobagem, todos se conhecem lá.

Três quadras a diante viro à direita. Um jovem vem vindo em sua moto sucateada, privilégio de quem ainda têm gasolina. Me ponho à sua frente, arranco-o da moto, embarco e acelero para fora do centro.

Ando pela rodovia estadual pensando no colosso venenoso que despertou nesse planeta. Eu tinha 32 anos, a vida era perfeita, os jornais eram entregues com flores e um frasco de mel uma vez por semana. Os tremores começaram, logo as cúpulas continentais não suportaram os tsunamis e ruíram com o sentimento de segurança daquela Fortaleza.

Logo descobriu-se que os tremores e tsunamis eram produto da abertura de fendas que incialmente surgiram nos oceanos, mas não tardaram a materializarem-se nos continentes.

Dois meses depois do surgimento das fendas, passaram a crescer das mesmas grandes formações rochosas, com diâmetro estimado de 500 à 800 metros e altura de pelo menos 1,5 quilômetros.

Cientistas daquele e de outros Planetas Fortalezas juntaram-se em prol da descoberta da causa dos acontecimentos, e em um ano encontraram a resposta. Não habitávamos uma formação geológica de estrutura física e social planejada, mas um ser vivo colossal que dormia a milhões de anos naquele sistema solar, e que, a julgar pela metamorfose, estava a ponto de despertar.

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Murilo Salini
Noite qualquer em Lugar qualquer

A figura pulou em meu peito, gritando algo que não pude compreender, e cravando o crucifixo de cabeça para baixo em meu peito. Como se os demônios já não me quisessem ao seu lado.

No bar, volto ao meu corpo com um imbecil apagando seu cigarro nas costas de minha mão. Jogo a garrafa de cerveja para cima fazendo-a girar, agarro o seu bico no ar, bato a base na superfície do balcão gerando pontas afiadas, golpeio o rosto do verme duas vezes na mandíbula e uma vez nas vistas. A lâmina dele passou rápida e próxima o suficiente para fazer-me sangrar na barriga.

Olho para o desfigurado, desmaiado em seu sangue. Nobur fora um bom amigo, mas às vezes perdia a noção dos atos.

Corro para fora, atravesso o gramado, pulo o muro das dependências do bar antes que me notem o suficiente para me entregarem. Bobagem, todos se conhecem lá.

Três quadras a diante viro à direita. Um jovem vem vindo em sua moto sucateada, privilégio de quem ainda têm gasolina. Me ponho à sua frente, arranco-o da moto, embarco e acelero para fora do centro.

Ando pela rodovia estadual pensando no colosso venenoso que despertou nesse planeta. Eu tinha 32 anos, a vida era perfeita, os jornais eram entregues com flores e um frasco de mel uma vez por semana. Os tremores começaram, logo as cúpulas continentais não suportaram os tsunamis e ruíram com o sentimento de segurança daquela Fortaleza.

Logo descobriu-se que os tremores e tsunamis eram produto da abertura de fendas que incialmente surgiram nos oceanos, mas não tardaram a materializarem-se nos continentes.

Dois meses depois do surgimento das fendas, passaram a crescer das mesmas grandes formações rochosas, com diâmetro estimado de 500 à 800 metros e altura de pelo menos 1,5 quilômetros.

Cientistas daquele e de outros Planetas Fortalezas juntaram-se em prol da descoberta da causa dos acontecimentos, e em um ano encontraram a resposta. Não habitávamos uma formação geológica de estrutura física e social planejada, mas um ser vivo colossal que dormia a milhões de anos naquele sistema solar, e que, a julgar pela metamorfose, estava a ponto de despertar.

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