Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Murilo Salini
Da membrana de podridão; ácida e pegajosa, que meu encéfalo envolve; brotam minhas palavras.
Mas como espinhos, não flores.
Só há nesse universo coisa única a desabrochar... O caos.
A semente cancerosa se aprova e se propaga, ignorando o fato de que o exame que acusa o seu fardo se dá diante do espelho.
Ponha os olhos nos meus nódulos malditos; nos meus filhos, “crianças subversivas”; no meu rastro fumegante absolvido pela eternidade; e logo se dará a incisão.
Com um estilhaço de espelho
Hei de sua mente explorar
E como num sopro de estrelas em morte
Amiga estranheza irei semear






Noite qualquer em Lugar qualquer

Os cinco anos seguintes foram de trabalho e esperança. As formações pararam de crescer, os tremores não mais ocorreram, os governos e as grandes corporações reconstruíram suas estruturas e puseram em prática o plano U.T.O (Up To Out) que tinha como objetivo promover um crescimento econômico suficiente para a instalação de uma nova Fortaleza e evacuação desta.

No início do sexto ano, o pânico retornou acompanhado de ruína. Do topo das formações alienígenas um gás passou a emergir, espalhando-se por toda a atmosfera e transformando tudo que continha vida.

Casos de automutilação decorrentes de excesso de força e constância no atrito das mãos ao rosto em tentativas de aliviar pruídos faciais foram registrados em grande quantidade. Os primeiros exames constataram que os pulmões dos que sofriam tal mazela estavam tomados de ovos e que, quando eclodiam, os oxiúros desconhecidos subiam pela traqueia, tomavam as vias aéreas e faziam da carne e ossos dos seios da face a entrada para o prato principal, cérebro humano.

A esclera dos olhares de desolação passaram de branco para vermelho e o paladar deixou de existir.

Só havia duas causas de morte desde então, assassinato e suicídio.

Paro a moto na beira de uma estrada de terra. Sigo até um galpão de armazenagem de milho. Aconchego-me em fardos de feno. O milho doente estocado já está podre.

Ouço um barulho, a porta do galpão se abre com violência.

Parada na porta há uma garota. Veste uma camisola branca manchada e rasgada. Seu cabelo é longo, liso e branco. Sua pele é tão branca quanto o cabelo, exceto por uma mancha vermelha escura no alto do pescoço.

Ela adentra o galpão. Não andando, mas levitando.

Seus olhos são alaranjados, emanam uma luz maléfica, e mesmo ocultando-me nas sombras sei que é em mim que estão vidrados.

Uma alma penada suicida… A mancha de sangue no pescoço esclarece tudo. O desespero afeta sobretudo os jovens. Anos de dor e melancolia esperam por eles.

A figura se aproxima lentamente, tremo e mijo em minhas calças ao mesmo tempo que me impeço de fechar os olhos ante tal beleza bestial.

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Murilo Salini
Noite qualquer em Lugar qualquer

Os cinco anos seguintes foram de trabalho e esperança. As formações pararam de crescer, os tremores não mais ocorreram, os governos e as grandes corporações reconstruíram suas estruturas e puseram em prática o plano U.T.O (Up To Out) que tinha como objetivo promover um crescimento econômico suficiente para a instalação de uma nova Fortaleza e evacuação desta.

No início do sexto ano, o pânico retornou acompanhado de ruína. Do topo das formações alienígenas um gás passou a emergir, espalhando-se por toda a atmosfera e transformando tudo que continha vida.

Casos de automutilação decorrentes de excesso de força e constância no atrito das mãos ao rosto em tentativas de aliviar pruídos faciais foram registrados em grande quantidade. Os primeiros exames constataram que os pulmões dos que sofriam tal mazela estavam tomados de ovos e que, quando eclodiam, os oxiúros desconhecidos subiam pela traqueia, tomavam as vias aéreas e faziam da carne e ossos dos seios da face a entrada para o prato principal, cérebro humano.

A esclera dos olhares de desolação passaram de branco para vermelho e o paladar deixou de existir.

Só havia duas causas de morte desde então, assassinato e suicídio.

Paro a moto na beira de uma estrada de terra. Sigo até um galpão de armazenagem de milho. Aconchego-me em fardos de feno. O milho doente estocado já está podre.

Ouço um barulho, a porta do galpão se abre com violência.

Parada na porta há uma garota. Veste uma camisola branca manchada e rasgada. Seu cabelo é longo, liso e branco. Sua pele é tão branca quanto o cabelo, exceto por uma mancha vermelha escura no alto do pescoço.

Ela adentra o galpão. Não andando, mas levitando.

Seus olhos são alaranjados, emanam uma luz maléfica, e mesmo ocultando-me nas sombras sei que é em mim que estão vidrados.

Uma alma penada suicida… A mancha de sangue no pescoço esclarece tudo. O desespero afeta sobretudo os jovens. Anos de dor e melancolia esperam por eles.

A figura se aproxima lentamente, tremo e mijo em minhas calças ao mesmo tempo que me impeço de fechar os olhos ante tal beleza bestial.

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