Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Murilo Salini
Da membrana de podridão; ácida e pegajosa, que meu encéfalo envolve; brotam minhas palavras.
Mas como espinhos, não flores.
Só há nesse universo coisa única a desabrochar... O caos.
A semente cancerosa se aprova e se propaga, ignorando o fato de que o exame que acusa o seu fardo se dá diante do espelho.
Ponha os olhos nos meus nódulos malditos; nos meus filhos, “crianças subversivas”; no meu rastro fumegante absolvido pela eternidade; e logo se dará a incisão.
Com um estilhaço de espelho
Hei de sua mente explorar
E como num sopro de estrelas em morte
Amiga estranheza irei semear






Noite qualquer em Lugar qualquer

Com o canto da visão, do meio do milho, observo a saída de uma ratazana. Passo a observar o animal que caminha desajeitado em minha direção. Uma má formação em seu crânio revela apenas um olho no animal, amarelo e cruel, que me fita. Em suas costas carrega pendurada uma quinta pata malformada e duas caudas repugnantes o acompanham.

O animal sobe pela minha perna direita e para na minha barriga. Me olha como se desejasse passar uma mensagem.

A mão branca da garota apanha a ratazana violentamente. Ela olha para mim, olha para o animal, inclina sua cabeça para trás revelando, no que eu julguei ser um ferimento mortal, uma boca demoníaca, larga e profunda com dentes finos, compridos e salientes.

Coloca a ratazana ainda viva na boca repulsiva e a mastiga. O sangue escorre e mancha sua roupa.

Transpiro. Ardo em febre. Sorrio de maneira doentia e ela retribui com a boca da face. Alcanço o júbilo.

Em meio a tantos prognósticos de existência vil, faria de meu fim algo belo, algo digno de real regozijo. Minha existência seria devorada por tão bela e atroz criatura. Mastigar-me-ia ainda com vida e meu sangue tornar-se-ia seu sangue, nutrindo tamanha beleza.

Mas a jovem se satisfaz com a ratazana. Vira-me as costas e sai do galpão flutuando.

Existência miserável. Volto à casa, à família, ao tédio.

Amanhã preciso procurar emprego.

 

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Murilo Salini
Noite qualquer em Lugar qualquer

Com o canto da visão, do meio do milho, observo a saída de uma ratazana. Passo a observar o animal que caminha desajeitado em minha direção. Uma má formação em seu crânio revela apenas um olho no animal, amarelo e cruel, que me fita. Em suas costas carrega pendurada uma quinta pata malformada e duas caudas repugnantes o acompanham.

O animal sobe pela minha perna direita e para na minha barriga. Me olha como se desejasse passar uma mensagem.

A mão branca da garota apanha a ratazana violentamente. Ela olha para mim, olha para o animal, inclina sua cabeça para trás revelando, no que eu julguei ser um ferimento mortal, uma boca demoníaca, larga e profunda com dentes finos, compridos e salientes.

Coloca a ratazana ainda viva na boca repulsiva e a mastiga. O sangue escorre e mancha sua roupa.

Transpiro. Ardo em febre. Sorrio de maneira doentia e ela retribui com a boca da face. Alcanço o júbilo.

Em meio a tantos prognósticos de existência vil, faria de meu fim algo belo, algo digno de real regozijo. Minha existência seria devorada por tão bela e atroz criatura. Mastigar-me-ia ainda com vida e meu sangue tornar-se-ia seu sangue, nutrindo tamanha beleza.

Mas a jovem se satisfaz com a ratazana. Vira-me as costas e sai do galpão flutuando.

Existência miserável. Volto à casa, à família, ao tédio.

Amanhã preciso procurar emprego.

 

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