Planeta Cronos - Murilo Salini
Murilo Salini
Da membrana de podridão; ácida e pegajosa, que meu encéfalo envolve; brotam minhas palavras.
Mas como espinhos, não flores.
Só há nesse universo coisa única a desabrochar... O caos.
A semente cancerosa se aprova e se propaga, ignorando o fato de que o exame que acusa o seu fardo se dá diante do espelho.
Ponha os olhos nos meus nódulos malditos; nos meus filhos, “crianças subversivas”; no meu rastro fumegante absolvido pela eternidade; e logo se dará a incisão.
Com um estilhaço de espelho
Hei de sua mente explorar
E como num sopro de estrelas em morte
Amiga estranheza irei semear






Planeta Cronos

A esta hora o sol já nascia, e eu resolvi continuar seguindo o caminho imaginando encontrar um rio ou outra fonte de energia para todos aqueles animais que por ali seguiam. Quinhentos passos depois, roedores passaram a caminhar ao meu lado, centenas, e depois milhares. Marsupiais ultrapassaram-me, carneiros, algumas girafas e enfim uma manada de elefantes.

Quatrocentos passos à frente, depois de ser passado para trás por toda aquela fauna, deparei-me com o distanciamento das rochas, uma espécie de alargamento do caminho e logo depois o fim dele. Ali a minha frente todos os animais estavam estáticos, todos olhando para frente, para aquilo que eu ansiava conhecer.

Ao me aproximar dos animais, percebi neles uma espécie de estado de transe, como se eu ali não existisse podia vagar tranquilamente entre as almas presentes, cuidando apenas para não ser pisoteado pelo avanço que todos realizavam simultaneamente de instantes em instantes.
Coloquei-me em um espaço entre as filas de animais e avancei. A ansiedade tomou conta de meu ser de tal forma que cogitei dar-lhe forma autônoma e consciência, mas por ser apegado demais ao que faz de mim o que sou mantive-a em minhas costas e saliente em meu peito quando ali, aquilo, presenciei.

Eu estava na beira da cratera alaranjada olhando para baixo. Mas ali não havia sangue, havia sim uma formação rosada, porosa e aparentemente úmida que exalava um cheiro pútrido.

Os animais não mais se moviam, o agudo do silêncio invadiu-me a audição e uma forte dor de cabeça me pôs de joelhos na beira daquele abismo.

Então o ato de horror espontâneo aconteceu.

Sem reação alguma por causa da dor, eu assisti todos aqueles animais jogarem-se sem desespero, arrependimento, ou tentativa de salvação, em direção a formação rosada, e ouvia em ecos seus crânios e ossos estourarem com o choque.

Talvez aquilo tenha levado instantes, mas o tempo abandonou-me diante daquela visão.

Quando todos os animais já estavam mortos no fundo da cratera o agudo do silêncio soava novamente e a dor passara. Levantei para sair daquele lugar, e foi quando percebi que a superfície rosada malcheirosa agora se mexia, como uma serpente enrola a presa em espiral aquela coisa, que mostrou-se um organismo vivo, enrolava-se e erguia-se na minha direção, mantendo os corpos presos entre as curvas realizadas. Após subir até a metade do abismo, encolheu-se e adentrou um buraco negro antes coberto pela mesma, e logo em seguida formações pontiagudas provenientes de direções contrárias de ponta amarelada e base enegrecida fecharam aquele buraco.

Aquilo mastigou todos aqueles animais produzindo uma massa de sangue nauseante e malcheirosa, e em seguida engoliu tudo.

Levantei-me e corri para a pastagem.

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Murilo Salini
Planeta Cronos

A esta hora o sol já nascia, e eu resolvi continuar seguindo o caminho imaginando encontrar um rio ou outra fonte de energia para todos aqueles animais que por ali seguiam. Quinhentos passos depois, roedores passaram a caminhar ao meu lado, centenas, e depois milhares. Marsupiais ultrapassaram-me, carneiros, algumas girafas e enfim uma manada de elefantes.

Quatrocentos passos à frente, depois de ser passado para trás por toda aquela fauna, deparei-me com o distanciamento das rochas, uma espécie de alargamento do caminho e logo depois o fim dele. Ali a minha frente todos os animais estavam estáticos, todos olhando para frente, para aquilo que eu ansiava conhecer.

Ao me aproximar dos animais, percebi neles uma espécie de estado de transe, como se eu ali não existisse podia vagar tranquilamente entre as almas presentes, cuidando apenas para não ser pisoteado pelo avanço que todos realizavam simultaneamente de instantes em instantes.
Coloquei-me em um espaço entre as filas de animais e avancei. A ansiedade tomou conta de meu ser de tal forma que cogitei dar-lhe forma autônoma e consciência, mas por ser apegado demais ao que faz de mim o que sou mantive-a em minhas costas e saliente em meu peito quando ali, aquilo, presenciei.

Eu estava na beira da cratera alaranjada olhando para baixo. Mas ali não havia sangue, havia sim uma formação rosada, porosa e aparentemente úmida que exalava um cheiro pútrido.

Os animais não mais se moviam, o agudo do silêncio invadiu-me a audição e uma forte dor de cabeça me pôs de joelhos na beira daquele abismo.

Então o ato de horror espontâneo aconteceu.

Sem reação alguma por causa da dor, eu assisti todos aqueles animais jogarem-se sem desespero, arrependimento, ou tentativa de salvação, em direção a formação rosada, e ouvia em ecos seus crânios e ossos estourarem com o choque.

Talvez aquilo tenha levado instantes, mas o tempo abandonou-me diante daquela visão.

Quando todos os animais já estavam mortos no fundo da cratera o agudo do silêncio soava novamente e a dor passara. Levantei para sair daquele lugar, e foi quando percebi que a superfície rosada malcheirosa agora se mexia, como uma serpente enrola a presa em espiral aquela coisa, que mostrou-se um organismo vivo, enrolava-se e erguia-se na minha direção, mantendo os corpos presos entre as curvas realizadas. Após subir até a metade do abismo, encolheu-se e adentrou um buraco negro antes coberto pela mesma, e logo em seguida formações pontiagudas provenientes de direções contrárias de ponta amarelada e base enegrecida fecharam aquele buraco.

Aquilo mastigou todos aqueles animais produzindo uma massa de sangue nauseante e malcheirosa, e em seguida engoliu tudo.

Levantei-me e corri para a pastagem.

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