Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Petter Baiestorf
Teve um dia em que os espermatozóides festeiros de meu pai partiram em direção ao barzinho óvulo de minha mãe e lá começaram um sambinha esperto do criolo doido e eu ali nasci. Era 1974 e o clima de família tradicional/milico no poder/igreja vomitando regras me fez bem pra cabeça e virei, nada mais lógico, ateu anarquista debochado avesso a qualquer tipo de regras. Lá por 1988, um pouco antes talvez, comecei a escrever contos no caderno da escola. Tentei virar poeta, mas aí descobri os fanzines e comecei a colaborar e, na sequência, editar meus próprios títulos. Foi com fanzines que consegui conciliar minhas paixões por literatura, quadrinhos, música e, a maior de todas, cinema. Em 1992, com meu amigo de escola E.B. Toniolli, fundei a Canibal Filmes e comecei a filmar em VHS amador mesmo. Em 1995 um filme meu chamado "O Monstro Legume do Espaço" apresentou meu grupo pro underground brasileiro e, de lá pra cá, só tô tentando aproveitar o máximo essa festinha que é a vida.




Um treponema pallidum mutante atrapalhando a vida amorosa de um xanthorrhoea australis apaixonado III

Nuvens negras anunciavam uma tempestade de neve gelatinosa para os habitantes do deserto. O senhor Xanthorrhoea Australis, já acostumado com sua condição de eterno perdedor social, se divertia olhando os incríveis Anelídeos que lhe sugavam o vurmo de suas feridas pestilentas. Suas veias mesentéricas haviam começado a cantar uma suave canção para anunciar o retorno do doutor Hoffmann que, já faziam vinte e oito dias, havia partido para a Cidade Dos Canibais em busca de seu colega Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus Von Hohenheim que estava tratando casos de Syphilis Sive Morbus Gallicus com mercúrio, um metal que ele conhecia de suas experiências com alquimia. Hoffmann e Von Hohenheim chegaram até Xanthorrhoea no mesmo instante que os primeiros cubos de neve gelatinosa caiam das nuvens negras cheias de fúria raivosa acumuladas. Von Hohenheim, tão logo colocou seus olhos de vidro no paciente, já aplicou também a primeira dose de mercúrio nas feridas. O grau avançado das purulências causadas pelo Treponema Pallidum faziam necessária uma cirurgia urgente. Von Hohenheim mandou Hoffmann aplicar uma dose extra de LSD 25 e, coçando sua enorme barriga de bebedor de cerveja boêmio, cantarolou “Cortar o que é mole, serrar o que é duro, ligar o que está sangrando. A beleza da enérgica simplicidade; já diria meu companheiro de copo maistre barbier chirurgien Ambroise Paré”. E colocou-se a cortar, serrar, ligar, amputar e desmembrar os tumores do senhor Xanthorrhoea, que neste momento estava completamente absorvido pelos delírios do fantástico LSD 25. Por toda a extensão de seu mesocéfalo os delírios tomavam a forma de visões extremamente pessoais. Seu encéfalo, principalmente a região onde se encontra o bulbo raquidiano, se emocionava com uma Welwitschia distorcida. Em seus delírios compostos de cores desbotadas berrantes, ele sentia o desespero indiscritível de um lucíola que padecia de limoctônia e percebia o quanto sua musa Welwitschia se divertia com o sofrimento alheio. Delirava com o fato de que após a cirurgia de Von Hohenheim ele iria se tornar um viciado hipospado e gargalhava solitário ao perceber que haviam criaturas mais infelizes do que ele, como o Stegomyia Fasciata com o ferrão em forma de saca-rolhas, ou como o Palaemonetas Serratus atacado por Miosite Clostridias, ou ainda, como a lendária Lampetra Fluviatilis e seus folículos pilosos tomados por milhares de Demodex Folliculorum.

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Petter Baiestorf
Um treponema pallidum mutante atrapalhando a vida amorosa de um xanthorrhoea australis apaixonado III

Nuvens negras anunciavam uma tempestade de neve gelatinosa para os habitantes do deserto. O senhor Xanthorrhoea Australis, já acostumado com sua condição de eterno perdedor social, se divertia olhando os incríveis Anelídeos que lhe sugavam o vurmo de suas feridas pestilentas. Suas veias mesentéricas haviam começado a cantar uma suave canção para anunciar o retorno do doutor Hoffmann que, já faziam vinte e oito dias, havia partido para a Cidade Dos Canibais em busca de seu colega Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus Von Hohenheim que estava tratando casos de Syphilis Sive Morbus Gallicus com mercúrio, um metal que ele conhecia de suas experiências com alquimia. Hoffmann e Von Hohenheim chegaram até Xanthorrhoea no mesmo instante que os primeiros cubos de neve gelatinosa caiam das nuvens negras cheias de fúria raivosa acumuladas. Von Hohenheim, tão logo colocou seus olhos de vidro no paciente, já aplicou também a primeira dose de mercúrio nas feridas. O grau avançado das purulências causadas pelo Treponema Pallidum faziam necessária uma cirurgia urgente. Von Hohenheim mandou Hoffmann aplicar uma dose extra de LSD 25 e, coçando sua enorme barriga de bebedor de cerveja boêmio, cantarolou “Cortar o que é mole, serrar o que é duro, ligar o que está sangrando. A beleza da enérgica simplicidade; já diria meu companheiro de copo maistre barbier chirurgien Ambroise Paré”. E colocou-se a cortar, serrar, ligar, amputar e desmembrar os tumores do senhor Xanthorrhoea, que neste momento estava completamente absorvido pelos delírios do fantástico LSD 25. Por toda a extensão de seu mesocéfalo os delírios tomavam a forma de visões extremamente pessoais. Seu encéfalo, principalmente a região onde se encontra o bulbo raquidiano, se emocionava com uma Welwitschia distorcida. Em seus delírios compostos de cores desbotadas berrantes, ele sentia o desespero indiscritível de um lucíola que padecia de limoctônia e percebia o quanto sua musa Welwitschia se divertia com o sofrimento alheio. Delirava com o fato de que após a cirurgia de Von Hohenheim ele iria se tornar um viciado hipospado e gargalhava solitário ao perceber que haviam criaturas mais infelizes do que ele, como o Stegomyia Fasciata com o ferrão em forma de saca-rolhas, ou como o Palaemonetas Serratus atacado por Miosite Clostridias, ou ainda, como a lendária Lampetra Fluviatilis e seus folículos pilosos tomados por milhares de Demodex Folliculorum.

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