Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
S. C. Mendes
Estudante de Artes Visuais na cidade de Piracicaba – SP. Apaixonada por livros desde que se entende por gente, trabalhou por um tempo com projetos de RPG e dedicou alguns anos de sua vida no estudo de literatura com ênfase em terror, suspense, mitologia, folclore e filosofia existencialista.
Se inspira em autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft, Charles Dickens, Shirley Jackson, Agatha Christie, Fiódor Dostoievski e Albert Camus.







Por entre as árvores

Perdi-me em devaneios de como a psique humana é interessante, nossa mente guarda tantos mistérios difíceis de serem explicados até mesmo pela psicologia. Cada um sabe bem a resolução de seus mistérios, em nosso âmago estão guardadas as respostas, mesmo que estejam longe de nossa compreensão. Essas respostas em sua maioria não são o que gostaríamos que fossem e podem causar imenso sofrimento, por isso às vezes ignoramos, apenas por conveniência.

A temperatura voltou a baixar de súbito, não demorou para que eu sentisse algo puxando levemente a fita que eu segurava, como se estivesse seguindo o caminho também, vindo atrás de mim. O pouco sangue que restava em meu rosto, abandonou-o, virei lentamente o pescoço para enxergar o que estava ali, consciente do que poderia ser, então não esbocei surpresa ao avistar aquela personagem bizarra outra vez, apenas desespero ao perceber que seus chifres estavam maiores e a cada encontro a distância entre nós ficava menor.

Não posso dizer que me enchi de coragem, tamanha era minha covardia que temia congelar novamente, eu estava imóvel e ele também. Foquei novamente em seguir o caminho, em cada passo que eu dava me sentia observada por aquilo, de fato estava me seguindo. Minha única esperança de que tudo fosse fruto da minha imaginação estava indo por água abaixo, pois por vezes meu nome era sussurrado com uma voz que se assemelhava a um rosnado. Olhei por sobre os ombros mais uma vez, dessa vez percebi que a monstruosidade aparentava ter garras também parecidas com galhos, os sussurros aparentavam sair dele, mesmo não possuindo boca. Seus olhos ainda reluzentes ganhavam tons avermelhados e me fitavam intensamente, aquilo estava ainda mais perto. Voltei a olhar para o caminho à frente.

A atmosfera sombria se juntava com um frio terrível, me perguntava se esse frio era sempre prelúdio de coisas ruins, meu corpo se arrepiava dos pés à cabeça, em um ato que mais parecia desistência que coragem, perguntei o que aquilo queria e nada se ouviu. Meu coração estava imerso em horror, não suportava mais aquela situação, me virei para olhar e aquela coisa não estava mais lá. Senti um enorme alivio, mas me virando bruscamente a esperança foi terrivelmente interrompida, lá estava novamente a macabra criatura, bem em minha frente, o susto foi tão grande que me fez urinar nas calças. Estava paralisada, suas garras frias me tocaram, senti cada gota de sangue gelar, meus sentidos me abandonaram e desmaiei. No começo tudo era breu, então logo me vi repassando os últimos fatos que ocorreram em minha vida.

Eu era uma modelo que tinha um nome importante na sociedade, com quinze anos de carreira infelizmente já não poderia me considerar tão jovem, o que se refletia em meu trabalho. Então uma nova modelo começou na mesma agência, no auge dos seus 19 anos, de uma beleza encantadora, mas um deboche desprezível com as outras que já eram um pouco mais velhas.

Começaram a substituir meu trabalho pelo dela, com isso minha qualidade de vida foi diminuindo e fui caindo em um sentimento que contornava a inveja e o ciúme. De certa forma parecia um pouco proposital da parte de Isabel, cheguei a um ponto de desconforto que considerei mudar de carreira, mas antes precisava conversar com ela.

Fui até sua casa em uma sexta-feira à noite, não queria guardar rancor, muito menos ter uma ideia negativa dela por bobagens, mas ainda queria uma satisfação, pois meu orgulho estava gravemente ferido por toda sua perseguição. Ela me recebeu de uma maneira rude, mas fez questão que eu entrasse, o que era para ser apenas uma conversa se

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S. C. Mendes
Por entre as árvores

Perdi-me em devaneios de como a psique humana é interessante, nossa mente guarda tantos mistérios difíceis de serem explicados até mesmo pela psicologia. Cada um sabe bem a resolução de seus mistérios, em nosso âmago estão guardadas as respostas, mesmo que estejam longe de nossa compreensão. Essas respostas em sua maioria não são o que gostaríamos que fossem e podem causar imenso sofrimento, por isso às vezes ignoramos, apenas por conveniência.

A temperatura voltou a baixar de súbito, não demorou para que eu sentisse algo puxando levemente a fita que eu segurava, como se estivesse seguindo o caminho também, vindo atrás de mim. O pouco sangue que restava em meu rosto, abandonou-o, virei lentamente o pescoço para enxergar o que estava ali, consciente do que poderia ser, então não esbocei surpresa ao avistar aquela personagem bizarra outra vez, apenas desespero ao perceber que seus chifres estavam maiores e a cada encontro a distância entre nós ficava menor.

Não posso dizer que me enchi de coragem, tamanha era minha covardia que temia congelar novamente, eu estava imóvel e ele também. Foquei novamente em seguir o caminho, em cada passo que eu dava me sentia observada por aquilo, de fato estava me seguindo. Minha única esperança de que tudo fosse fruto da minha imaginação estava indo por água abaixo, pois por vezes meu nome era sussurrado com uma voz que se assemelhava a um rosnado. Olhei por sobre os ombros mais uma vez, dessa vez percebi que a monstruosidade aparentava ter garras também parecidas com galhos, os sussurros aparentavam sair dele, mesmo não possuindo boca. Seus olhos ainda reluzentes ganhavam tons avermelhados e me fitavam intensamente, aquilo estava ainda mais perto. Voltei a olhar para o caminho à frente.

A atmosfera sombria se juntava com um frio terrível, me perguntava se esse frio era sempre prelúdio de coisas ruins, meu corpo se arrepiava dos pés à cabeça, em um ato que mais parecia desistência que coragem, perguntei o que aquilo queria e nada se ouviu. Meu coração estava imerso em horror, não suportava mais aquela situação, me virei para olhar e aquela coisa não estava mais lá. Senti um enorme alivio, mas me virando bruscamente a esperança foi terrivelmente interrompida, lá estava novamente a macabra criatura, bem em minha frente, o susto foi tão grande que me fez urinar nas calças. Estava paralisada, suas garras frias me tocaram, senti cada gota de sangue gelar, meus sentidos me abandonaram e desmaiei. No começo tudo era breu, então logo me vi repassando os últimos fatos que ocorreram em minha vida.

Eu era uma modelo que tinha um nome importante na sociedade, com quinze anos de carreira infelizmente já não poderia me considerar tão jovem, o que se refletia em meu trabalho. Então uma nova modelo começou na mesma agência, no auge dos seus 19 anos, de uma beleza encantadora, mas um deboche desprezível com as outras que já eram um pouco mais velhas.

Começaram a substituir meu trabalho pelo dela, com isso minha qualidade de vida foi diminuindo e fui caindo em um sentimento que contornava a inveja e o ciúme. De certa forma parecia um pouco proposital da parte de Isabel, cheguei a um ponto de desconforto que considerei mudar de carreira, mas antes precisava conversar com ela.

Fui até sua casa em uma sexta-feira à noite, não queria guardar rancor, muito menos ter uma ideia negativa dela por bobagens, mas ainda queria uma satisfação, pois meu orgulho estava gravemente ferido por toda sua perseguição. Ela me recebeu de uma maneira rude, mas fez questão que eu entrasse, o que era para ser apenas uma conversa se

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