Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
S. C. Mendes
Estudante de Artes Visuais na cidade de Piracicaba – SP. Apaixonada por livros desde que se entende por gente, trabalhou por um tempo com projetos de RPG e dedicou alguns anos de sua vida no estudo de literatura com ênfase em terror, suspense, mitologia, folclore e filosofia existencialista.
Se inspira em autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft, Charles Dickens, Shirley Jackson, Agatha Christie, Fiódor Dostoievski e Albert Camus.







Por entre as árvores

transformou em uma grande discussão. Estava nítido que Isabel queria me superar, que tinha recursos para isso. Coisas ruins foram crescendo dentro de mim.

Logo perdemos o controle, estávamos rolando aos tapas pelo chão, ela era um pouco mais forte e estava com a vantagem, para tentar me livrar de seus golpes estendi a mão para cima da mesa de centro e achei algo pesado, então em defesa golpeei sua cabeça, o que fez com que ela caísse para o lado. Mas não era suficiente, minha raiva transbordava de um modo maquiavélico, estava completamente fora de mim, tudo que eu queria era aquela garota fora do meu caminho. Foi quando juntei toda minha força e bati mais algumas vezes em sua cabeça, abrindo um enorme buraco.

Quando voltei a mim, algo parecia muito errado, era como se eu tivesse recuperado a visão, e lá estava ela, com o crânio aberto e coberta por sangue, seus olhos sem vida. Verifiquei seu pulso apenas para constatar o que já sabia, agora era o fim, era realmente meu fim. Um pouco de alivio se instalou no meu peito, paradoxalmente era um problema a menos, felicidade estava no ar, mas não me permiti sentir algo tão asqueroso por muito tempo, tinha que recobrar quem eu era, já não me reconhecia, aquela não era eu.

Ainda precisava me proteger, então por impulsividade tomei a decisão de forjar seu suicídio no Vale das Sombras, estacionei meu carro na garagem e depositei o corpo no banco de trás, estava ficando louca, não possuía mais o controle de minhas próprias emoções, me sentia uma criminosa fria com tudo aquilo. Fui dirigindo noite afora, em alguns momentos parecia que via pelo espelho Isabel sentada, toda ensanguentada, rindo de mim no banco de trás.

Já estava amanhecendo quando estacionei o carro, mas tive o cuidado de estacionar em um local apropriado para esconder algo, era uma entrada meio clandestina para a floresta, ficava longe da entrada principal que atraía alguns

turistas, mesmo assim eu tinha que ser rápida, apesar se ser uma estrada um pouco deserta, alguns carros ainda passavam por ali. Peguei o corpo de Isabel no colo até onde minhas forças aguentavam, no momento em que coloquei ele no chão para descansar, seu maço de cigarro e isqueiro caíram do bolso de sua calça, peguei eles e coloquei no bolso de minha jaqueta, depois me livraria daquilo. Segurei em seus pulsos e fui arrastando seu corpo até onde julguei já estar distante o bastante, julguei ser uma caminhada de uma hora.

Então percebi que seria muito difícil simular um suicídio com aquela abertura em sua cabeça, o desespero me cegou a ponto de nem pensar nisso antes, meu plano era falho. Olhei pra Isabel no chão, morta, olhei para minhas mãos cobertas de sangue, perguntei a mim mesma o que havia me tornado, um monstro sem dúvidas. Vomitei, era nojo, repugnância de mim mesma.

A solução lógica era voltar para meu carro, pegar meu celular e ligar para polícia me entregando, mas no momento eu queria morrer, num surto de desespero saí correndo dali,

Acordei, ainda estava escuro e silencioso, desatei a chorar, gritei, só conseguia pensar em uma coisa: “O que foi que eu fiz? ”. A dor agora era maior que o medo. Depois da crise, fiquei um tempo assim, deitada, não sabia se por dentro estava morrendo ou ficando louca, comecei a rir e gargalhar, de fato estava louca. Procurei pelo isqueiro nos arredores e o encontrei, me levantei e o acendi, me apoiei novamente na fita. Mas senti novamente aquele frio, não foi surpresa olhar para trás e ver aquela coisa sinistra bem perto de mim, voltei a chorar, a tremer e a surtar. Mas me mantive firme, eu não era um monstro, eu precisava fazer o que era certo, precisava encontrar a luz, precisava encontrar a minha luz.

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S. C. Mendes
Por entre as árvores

transformou em uma grande discussão. Estava nítido que Isabel queria me superar, que tinha recursos para isso. Coisas ruins foram crescendo dentro de mim.

Logo perdemos o controle, estávamos rolando aos tapas pelo chão, ela era um pouco mais forte e estava com a vantagem, para tentar me livrar de seus golpes estendi a mão para cima da mesa de centro e achei algo pesado, então em defesa golpeei sua cabeça, o que fez com que ela caísse para o lado. Mas não era suficiente, minha raiva transbordava de um modo maquiavélico, estava completamente fora de mim, tudo que eu queria era aquela garota fora do meu caminho. Foi quando juntei toda minha força e bati mais algumas vezes em sua cabeça, abrindo um enorme buraco.

Quando voltei a mim, algo parecia muito errado, era como se eu tivesse recuperado a visão, e lá estava ela, com o crânio aberto e coberta por sangue, seus olhos sem vida. Verifiquei seu pulso apenas para constatar o que já sabia, agora era o fim, era realmente meu fim. Um pouco de alivio se instalou no meu peito, paradoxalmente era um problema a menos, felicidade estava no ar, mas não me permiti sentir algo tão asqueroso por muito tempo, tinha que recobrar quem eu era, já não me reconhecia, aquela não era eu.

Ainda precisava me proteger, então por impulsividade tomei a decisão de forjar seu suicídio no Vale das Sombras, estacionei meu carro na garagem e depositei o corpo no banco de trás, estava ficando louca, não possuía mais o controle de minhas próprias emoções, me sentia uma criminosa fria com tudo aquilo. Fui dirigindo noite afora, em alguns momentos parecia que via pelo espelho Isabel sentada, toda ensanguentada, rindo de mim no banco de trás.

Já estava amanhecendo quando estacionei o carro, mas tive o cuidado de estacionar em um local apropriado para esconder algo, era uma entrada meio clandestina para a floresta, ficava longe da entrada principal que atraía alguns

turistas, mesmo assim eu tinha que ser rápida, apesar se ser uma estrada um pouco deserta, alguns carros ainda passavam por ali. Peguei o corpo de Isabel no colo até onde minhas forças aguentavam, no momento em que coloquei ele no chão para descansar, seu maço de cigarro e isqueiro caíram do bolso de sua calça, peguei eles e coloquei no bolso de minha jaqueta, depois me livraria daquilo. Segurei em seus pulsos e fui arrastando seu corpo até onde julguei já estar distante o bastante, julguei ser uma caminhada de uma hora.

Então percebi que seria muito difícil simular um suicídio com aquela abertura em sua cabeça, o desespero me cegou a ponto de nem pensar nisso antes, meu plano era falho. Olhei pra Isabel no chão, morta, olhei para minhas mãos cobertas de sangue, perguntei a mim mesma o que havia me tornado, um monstro sem dúvidas. Vomitei, era nojo, repugnância de mim mesma.

A solução lógica era voltar para meu carro, pegar meu celular e ligar para polícia me entregando, mas no momento eu queria morrer, num surto de desespero saí correndo dali,

Acordei, ainda estava escuro e silencioso, desatei a chorar, gritei, só conseguia pensar em uma coisa: “O que foi que eu fiz? ”. A dor agora era maior que o medo. Depois da crise, fiquei um tempo assim, deitada, não sabia se por dentro estava morrendo ou ficando louca, comecei a rir e gargalhar, de fato estava louca. Procurei pelo isqueiro nos arredores e o encontrei, me levantei e o acendi, me apoiei novamente na fita. Mas senti novamente aquele frio, não foi surpresa olhar para trás e ver aquela coisa sinistra bem perto de mim, voltei a chorar, a tremer e a surtar. Mas me mantive firme, eu não era um monstro, eu precisava fazer o que era certo, precisava encontrar a luz, precisava encontrar a minha luz.

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