Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Tatianie Kiosia
Tatianie Kiosia reside em Campinas no interior de São Paulo, tem 35 anos e é artesã e escritora, autora de contos de horror, caracterizada por um mórbido e culto refinamento singular apenas aos indivíduos cuja ironia cáustica somada à criativa imaginação culminam em textos de profundo horror. Por anos foi mantenedora e coeditora do fanzine Vampyrum Spectrum, publicação dedicada á música extrema e ocultismo que circulou ativamente pelo necrounderground brasileiro e que deverá ressurgir numa obscura aurora. É idealizadora do blog Escritos do Inferno, insano depositário de muitos de seus contos de horror e de histórias causadoras de forte repulsa, não recomendado aos indivíduos mais frágeis. Escritos do Inferno é também o título de seu primeiro livro, obra publicada de forma independente pelo Clube de Autores durante o ano de 2017 que reúne vários de seus trabalhos, alguns escritos no início da adolescência.
Hoje vive literalmente de sua arte, e nas poucas horas vagas escreve contos inspirados em sonhos estranhos, lembranças bizarras e fatos insólitos do dia a dia.
E-mail: tatianie_kiosia@hotmail.com
Facebook: facebook.com/tatianie.kiosia
Site: escritosdoinferno.wordpress.com






Culto sinistro

No decorrer de alguns meses, comecei a participar de alguns rituais deles. Eu poderia acabar com a vida deles delatando-os aos meus superiores, mas eu estava gostando deles, e principalmente de Nefertiti. Fui pressionado a demonstrar resultados. Não houve outra maneira, para que não desconfiassem de nada tive que concluir a investigação com a delação e prisão do pessoal ateu. Lamentei por isso, principalmente por aqueles que perderam a guarda dos filhos para o Estado Cristão (mas em breve estarei cuidando do retorno dessas crianças, não para seus pais ateus, mas para outro tipo de criação).

Fui deixado em paz para prosseguir com aquelas reuniões tão interessantes. Aprendi muita coisa e com isso passei a conseguir muitas coisas sem precisar acabar com a vida de ninguém. Eu me assustei quando alguns se reuniram à minha volta e disseram ter descoberto que eu na verdade era um agente da polícia infiltrado. Pensei que seria o meu fim, que fossem me sacrificar no altar, ou apenas me executar. Mas não fizeram nada disso. Só me fizeram passar por uma prova. E se eu passasse seria de fato admitido como membro efetivo, caso não… bem, isso não me disseram, mas eu podia imaginar.

A noite chegou e eu estava ansioso e um pouco apreensivo. Havia bem mais gente do que de costume. O clima era de seriedade.

Todos estavam vestidos em suas túnicas negras, caminhando em círculo em sentido anti-horário. A fumaça dos incensos era espessa e me ardia os olhos. O integrante mais velho sacrificou um animal, recolhendo seu sangue numa taça de prata. Uma mistura de infusão de ervas foi misturada nesse sangue e a taça foi oferecida a mim, somente a mim. Eu tinha que beber todo o seu conteúdo. Todos estavam em volta, me olhando. Tive medo. Não sei que ervas foram misturadas. Após alguns minutos, algo fez efeito e o chão parecia sumir sob meus pés, e o teto parecia baixar sobre minha cabeça. Eles me drogaram. Fiquei num estado de semiconsciência letárgica. Vi sombras negras formarem-se nas paredes rubras do recinto, vi formas demoníacas se desenrolarem no ar com a fumaça do incenso. Vi a energia fosforescente emanar do sangue derramado e subir em espirais sinistras e envolventes. Ouvi sussurros, risos, cânticos, batidas, flautas. Não sei mais o que era real ou não. Tentei chacoalhar a cabeça, quando vi estavam todos nus, numa orgia infernal. Corpos entrelaçados como serpentes, gemidos, gritos. Peles brancas avermelhadas pelo sangue do sacrifício que parecia estar em toda parte. Alguém me agarrou, não sei quem era… perdi a consciência de uma vez e seja lá o que aconteceu, não me lembro de mais nada.

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Tatianie Kiosia
Culto sinistro

No decorrer de alguns meses, comecei a participar de alguns rituais deles. Eu poderia acabar com a vida deles delatando-os aos meus superiores, mas eu estava gostando deles, e principalmente de Nefertiti. Fui pressionado a demonstrar resultados. Não houve outra maneira, para que não desconfiassem de nada tive que concluir a investigação com a delação e prisão do pessoal ateu. Lamentei por isso, principalmente por aqueles que perderam a guarda dos filhos para o Estado Cristão (mas em breve estarei cuidando do retorno dessas crianças, não para seus pais ateus, mas para outro tipo de criação).

Fui deixado em paz para prosseguir com aquelas reuniões tão interessantes. Aprendi muita coisa e com isso passei a conseguir muitas coisas sem precisar acabar com a vida de ninguém. Eu me assustei quando alguns se reuniram à minha volta e disseram ter descoberto que eu na verdade era um agente da polícia infiltrado. Pensei que seria o meu fim, que fossem me sacrificar no altar, ou apenas me executar. Mas não fizeram nada disso. Só me fizeram passar por uma prova. E se eu passasse seria de fato admitido como membro efetivo, caso não… bem, isso não me disseram, mas eu podia imaginar.

A noite chegou e eu estava ansioso e um pouco apreensivo. Havia bem mais gente do que de costume. O clima era de seriedade.

Todos estavam vestidos em suas túnicas negras, caminhando em círculo em sentido anti-horário. A fumaça dos incensos era espessa e me ardia os olhos. O integrante mais velho sacrificou um animal, recolhendo seu sangue numa taça de prata. Uma mistura de infusão de ervas foi misturada nesse sangue e a taça foi oferecida a mim, somente a mim. Eu tinha que beber todo o seu conteúdo. Todos estavam em volta, me olhando. Tive medo. Não sei que ervas foram misturadas. Após alguns minutos, algo fez efeito e o chão parecia sumir sob meus pés, e o teto parecia baixar sobre minha cabeça. Eles me drogaram. Fiquei num estado de semiconsciência letárgica. Vi sombras negras formarem-se nas paredes rubras do recinto, vi formas demoníacas se desenrolarem no ar com a fumaça do incenso. Vi a energia fosforescente emanar do sangue derramado e subir em espirais sinistras e envolventes. Ouvi sussurros, risos, cânticos, batidas, flautas. Não sei mais o que era real ou não. Tentei chacoalhar a cabeça, quando vi estavam todos nus, numa orgia infernal. Corpos entrelaçados como serpentes, gemidos, gritos. Peles brancas avermelhadas pelo sangue do sacrifício que parecia estar em toda parte. Alguém me agarrou, não sei quem era… perdi a consciência de uma vez e seja lá o que aconteceu, não me lembro de mais nada.

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