A casa - Wan Moura
Wan Moura
Sou uma alma fragmentada que geralmente caminha beirando o precipício. Já acordei nas Montanhas da Loucura e já passei pelo Desfiladeiro do Medo. Peguei carona com o dono do Buick 8 e já fui mordido por um cão, Cujo dono era O Iluminado. Eu durmo em criptas e tento colaborar com O Corvo que, dia após dia, consome meu Coração Satânico. Enfim, esse sou eu! Canceriano, negro de cor e coração nefasto, viciado num bom e velho Rock, um tatuado nascido sob o segundo dia de um Julho de 1989, eletricista como ganha pão e que escreve com o nobre intuito de espalhar um amargo veneno cáustico no ar, apenas para admirar o caos de camarote. Um ser bizarro, praticante da Lei de Talião e apaixonado pelo que é macabro e obscuro. Wan Moura é uma centelha mefistofélica vivendo clandestinamente na capital maranhense. Sou tudo isso e nenhuma molécula a mais.
E-mail: wandersonwmoura@gmail.com
Wattpad: WanMoura






A casa

Os olhos eram pequenos e murchos como uvas passas incrustadas numa massa disforme. Não havia nada além de resquícios do que um dia foi um nariz e onde deveria haver a boca existia apenas uma cratera negra que desprendia um forte odor.

O cheiro de comida estragada e amônia fizeram arder as narinas de Breno.

A coisa continuava com o braço estendido. O dedo indicador retesado enquanto um líquido espesso escorria até a base do punho, antes de cair no chão como uma gota de ácido.

Breno desviou o olhar para o relógio sobre a cabeceira da cama e viu os ponteiros petrificados sobre o décimo segundo algarismo.

O tempo congelado em câmera lenta.

Mais grunhidos atravessaram o quarto e dessa vez a frase saiu ainda mais grotesca, sem sentido:

“Peç… nãa… lá… áa…”

Breno aguentou firme, mesmo com tudo se opondo a isso.

O esforço da criatura em se comunicar feria os ouvidos.

O fedor chegava ao limite do suportável.

A imagem infernal dardejava a retina.

O medo escapava de cada célula do garoto de treze anos.

Tudo acumulado como numa gigantesca bola de neve.

Então, num impulso, Breno abandonou a cama.

Por um instante ficou de pé, estático e pensativo.

A sola dos pés beijava o chão frio; os dedos contraíam-se como lesmas num pote de sal.

No instante seguinte caminhou devagar evitando ao máximo se aproximar da visita indesejada, desviou o percurso com a ajuda da borda lateral da cama.

Pelo canto dos olhos viu a aparição flutuar para a escuridão grunhindo, lamentando.

Não era a primeira vez que o menino médium testemunhava algo do tipo, mas desta vez sentia o medo se apossando do raciocínio.

Manteve os olhos castanhos fixos no local indicado pela aparição e enquanto se aproximava o olho esquerdo intensificava as ferroadas, os pulmões reclamavam ao inspirar o ar gelado e os pés contraíam cãibras.

Ao chegar à janela, Breno se desvencilhou da fúria das cortinas e o que viu lá fora enfiou uma adaga de horror em sua alma.

Breno recuou com a boca aberta num grito silencioso.

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Wan Moura
A casa

Os olhos eram pequenos e murchos como uvas passas incrustadas numa massa disforme. Não havia nada além de resquícios do que um dia foi um nariz e onde deveria haver a boca existia apenas uma cratera negra que desprendia um forte odor.

O cheiro de comida estragada e amônia fizeram arder as narinas de Breno.

A coisa continuava com o braço estendido. O dedo indicador retesado enquanto um líquido espesso escorria até a base do punho, antes de cair no chão como uma gota de ácido.

Breno desviou o olhar para o relógio sobre a cabeceira da cama e viu os ponteiros petrificados sobre o décimo segundo algarismo.

O tempo congelado em câmera lenta.

Mais grunhidos atravessaram o quarto e dessa vez a frase saiu ainda mais grotesca, sem sentido:

“Peç… nãa… lá… áa…”

Breno aguentou firme, mesmo com tudo se opondo a isso.

O esforço da criatura em se comunicar feria os ouvidos.

O fedor chegava ao limite do suportável.

A imagem infernal dardejava a retina.

O medo escapava de cada célula do garoto de treze anos.

Tudo acumulado como numa gigantesca bola de neve.

Então, num impulso, Breno abandonou a cama.

Por um instante ficou de pé, estático e pensativo.

A sola dos pés beijava o chão frio; os dedos contraíam-se como lesmas num pote de sal.

No instante seguinte caminhou devagar evitando ao máximo se aproximar da visita indesejada, desviou o percurso com a ajuda da borda lateral da cama.

Pelo canto dos olhos viu a aparição flutuar para a escuridão grunhindo, lamentando.

Não era a primeira vez que o menino médium testemunhava algo do tipo, mas desta vez sentia o medo se apossando do raciocínio.

Manteve os olhos castanhos fixos no local indicado pela aparição e enquanto se aproximava o olho esquerdo intensificava as ferroadas, os pulmões reclamavam ao inspirar o ar gelado e os pés contraíam cãibras.

Ao chegar à janela, Breno se desvencilhou da fúria das cortinas e o que viu lá fora enfiou uma adaga de horror em sua alma.

Breno recuou com a boca aberta num grito silencioso.

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