Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Wan Moura
Sou uma alma fragmentada que geralmente caminha beirando o precipício. Já acordei nas Montanhas da Loucura e já passei pelo Desfiladeiro do Medo. Peguei carona com o dono do Buick 8 e já fui mordido por um cão, Cujo dono era O Iluminado. Eu durmo em criptas e tento colaborar com O Corvo que, dia após dia, consome meu Coração Satânico. Enfim, esse sou eu! Canceriano, negro de cor e coração nefasto, viciado num bom e velho Rock, um tatuado nascido sob o segundo dia de um Julho de 1989, eletricista como ganha pão e que escreve com o nobre intuito de espalhar um amargo veneno cáustico no ar, apenas para admirar o caos de camarote. Um ser bizarro, praticante da Lei de Talião e apaixonado pelo que é macabro e obscuro. Wan Moura é uma centelha mefistofélica vivendo clandestinamente na capital maranhense. Sou tudo isso e nenhuma molécula a mais.
E-mail: wandersonwmoura@gmail.com
Wattpad: WanMoura






O doce aroma de sangue

— Mas é verdade Paulo, juro por Deus! — Disse o homem cruzando e beijando de leve os dedos indicadores sobre a boca, enquanto fechava a porta do carro com o joelho esquerdo.

— Sei. Mas faz melhor… Não esquece as cordas!

— Certo. Paulo… Tu fechou a carroceria da pampa?

— Claro que não, burro. Como vamos empurrar os cavalos pra cima? Ainda mais hoje que o idiota do teu irmão não veio pra ajudar?

— Foi mal mesmo. Ei, tu tá com o revólvi?

— O certo é “revólver”. Taqui comigo. Ou tu acha que sou doido? Da última vez aquele velho bisbilhoteiro quase pegava nós.

— Verdade… Paulo, nunca entendi porque diabos temos que passar por esse atalho do cemitério. Tenho um medo do caramba, porque uma vez o irmão de um…

— Shhhhhhh… Te cala! — ordenou um dos intrusos, agachando-se e forçando o outro a fazer o mesmo.

— O que foi Paulo?!

— Porra Henrique, tu não ouviu nada?!

— Eu nã…

Um rosnado ecoou na madrugada, destroçando toda a quietude do cemitério. Os homens sentiram o medo lhes lamber da base da coluna à nuca, mas apesar disso, confiaram em continuar o plano. Prosseguiram depois de algum tempo se ocultando por entre lápides e cruzes de madeira enfincadas na terra escura. Naquele dia não corria uma brisa sequer, nem os grilos ousaram cricrilar. As nuvens já se dispersavam, deixando a lua reinar com sua luz doente. Os ladrões — dois amigos de infância que naquele Outubro de 97 haviam descoberto uma nova forma de lucrar — estavam novamente no caminho para furtar as criações da Fazenda Santo Refúgio. O esquema era simples: roubavam os animais e transportavam-lhes até às fazendas dos receptadores. Revendiam a preços abaixo do mercado, garantindo lucro imediato. Porém, naquela noite algo estava diferente.

Eles caminharam por um tempo, até avistar a fazenda em questão. Ao longe dava para ver a cabana do velho caseiro; a porta e a única janela do casebre permaneciam fechadas. Os assaltantes passaram pelo curral e caminharam entre alguns animais, indo direto para onde os cavalos eram guardados. Ao entrarem na cocheira os ladrões congelaram, assim como o grito que ambos ansiavam libertar de suas gargantas. Diante deles, jazia a carcaça de um cavalo com as entranhas esparramadas sobre uma poça de sangue. As patas traseiras foram parcialmente devoradas e metade de seu crânio havia sido esfolado.

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Wan Moura
O doce aroma de sangue

— Mas é verdade Paulo, juro por Deus! — Disse o homem cruzando e beijando de leve os dedos indicadores sobre a boca, enquanto fechava a porta do carro com o joelho esquerdo.

— Sei. Mas faz melhor… Não esquece as cordas!

— Certo. Paulo… Tu fechou a carroceria da pampa?

— Claro que não, burro. Como vamos empurrar os cavalos pra cima? Ainda mais hoje que o idiota do teu irmão não veio pra ajudar?

— Foi mal mesmo. Ei, tu tá com o revólvi?

— O certo é “revólver”. Taqui comigo. Ou tu acha que sou doido? Da última vez aquele velho bisbilhoteiro quase pegava nós.

— Verdade… Paulo, nunca entendi porque diabos temos que passar por esse atalho do cemitério. Tenho um medo do caramba, porque uma vez o irmão de um…

— Shhhhhhh… Te cala! — ordenou um dos intrusos, agachando-se e forçando o outro a fazer o mesmo.

— O que foi Paulo?!

— Porra Henrique, tu não ouviu nada?!

— Eu nã…

Um rosnado ecoou na madrugada, destroçando toda a quietude do cemitério. Os homens sentiram o medo lhes lamber da base da coluna à nuca, mas apesar disso, confiaram em continuar o plano. Prosseguiram depois de algum tempo se ocultando por entre lápides e cruzes de madeira enfincadas na terra escura. Naquele dia não corria uma brisa sequer, nem os grilos ousaram cricrilar. As nuvens já se dispersavam, deixando a lua reinar com sua luz doente. Os ladrões — dois amigos de infância que naquele Outubro de 97 haviam descoberto uma nova forma de lucrar — estavam novamente no caminho para furtar as criações da Fazenda Santo Refúgio. O esquema era simples: roubavam os animais e transportavam-lhes até às fazendas dos receptadores. Revendiam a preços abaixo do mercado, garantindo lucro imediato. Porém, naquela noite algo estava diferente.

Eles caminharam por um tempo, até avistar a fazenda em questão. Ao longe dava para ver a cabana do velho caseiro; a porta e a única janela do casebre permaneciam fechadas. Os assaltantes passaram pelo curral e caminharam entre alguns animais, indo direto para onde os cavalos eram guardados. Ao entrarem na cocheira os ladrões congelaram, assim como o grito que ambos ansiavam libertar de suas gargantas. Diante deles, jazia a carcaça de um cavalo com as entranhas esparramadas sobre uma poça de sangue. As patas traseiras foram parcialmente devoradas e metade de seu crânio havia sido esfolado.

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